BETO BELLINI
Há cinquenta anos, em Sertãozinho, a vida tinha outro ritmo. As ruas eram mais silenciosas, os vizinhos se conheciam pelo nome e o tempo parecia correr devagar. O cotidiano era marcado por encontros na praça, conversas na porta de casa e uma simplicidade que hoje soa quase utópica. Não havia a urgência dos celulares, nem a pressão das redes sociais. Havia, sim, o valor do olho no olho, da confiança construída no convívio e da alegria em pequenas conquistas.
Quando ouvimos Trem Bala, de Ana Vilela, é impossível não traçar um paralelo entre o Brasil acelerado de hoje e aquele Sertãozinho de meio século atrás. A canção nos lembra que viver não é colecionar vitórias, mas sentir o caminho. E o caminho, naquela época, era feito de passos mais lentos, de histórias contadas sem pressa, de uma vida que cabia dentro da comunidade.
Hoje, o trem bala é literal, a vida corre em alta velocidade. Trabalhamos mais, consumimos mais, mas será que vivemos mais? Em Sertãozinho dos anos 1970, o tempo era gasto em rodas de viola, festas religiosas e celebrações coletivas. A simplicidade não era pobreza de espírito, mas riqueza de convivência. O que se perdeu foi a capacidade de valorizar o que não pode ser comprado.
Nesse cenário, a chegada de profissionais como o Dr. Bellini, que veio ser médico em Sertãozinho e construiu sua família com cinco filhos, simbolizava o espírito de dedicação e pertencimento. O médico não era apenas um profissional de saúde; era parte da comunidade, alguém que conhecia seus pacientes pelo nome e participava das histórias de cada família. Essa proximidade, tão rara hoje, fazia da medicina um ato de humanidade.
Viver a vida, portanto, é escolher o que merece espaço em nossa memória. É reconhecer que o abraço de um amigo, o cheiro do café passado na hora ou a conversa fiada na calçada têm mais peso do que qualquer meta corporativa. O passado de Sertãozinho nos ensina que a vida não precisa ser grandiosa para ser plena. Precisa, sim, ser compartilhada.
Se o trem bala do tempo não pode ser freado, cabe a nós decidir como viajar. Podemos seguir correndo, acumulando destinos sem olhar pela janela, ou podemos resgatar a simplicidade de outrora — aquela que Sertãozinho conheceu tão bem. Viver a vida é um ato de escolha. E talvez a escolha mais sábia seja desacelerar, porque, no fim, o que fica não são os números, mas os afetos.
E, por fim, sorri e abraça os teus pais enquanto estão aqui, que a vida é trem bala, parceiro; e a gente é só passageiro prestes a partir.
Gilberto César Ortolan Bellini, mestre em Administração, professor da Fatec Sertãozinho e Unip RP, membro da ASEL - Academia Sertanezina de Letras - e da Rabugentos Cia Teatral.
