Tiradentes morreu. O Brasil se acostumou.

Tiradentes morreu. O Brasil se acostumou.
20/04/2026

Se 20% provocaram revolta em 1792, por que mais de 40% hoje produzem silêncio?

Tiradentes não morreu por acaso. Morreu porque, em algum momento, um grupo de pessoas decidiu que o sistema era insuportável.

No Brasil colonial, a Coroa portuguesa exigia o “quinto”, 20% de toda a riqueza produzida em ouro. Não era apenas um imposto. Era a materialização de um poder distante, que cobrava muito e devolvia quase nada. Quando surgiu a ameaça da derrama, cobrança forçada, o incômodo virou revolta.

Tiradentes foi o rosto dessa ruptura e foi morto por isso.

Hoje, o Brasil não é uma colônia. Temos eleições, Constituição, instituições, mas há algo profundamente incômodo que permanece: a sensação de que o pacto entre Estado e sociedade continua quebrado.

A carga tributária brasileira supera 40% do PIB, mas o problema nunca foi apenas o número.

O problema é o que ele revela.

Pagamos como um país desenvolvido e vivemos como um país que ainda não resolveu o básico. Estradas precárias, serviços públicos inconsistentes, insegurança, burocracia sufocante. O Estado é pesado para quem paga e ausente para quem precisa.

Não há derrama. Não há soldados batendo à porta.

Há algo mais eficiente: a normalização.

O brasileiro já não se revolta. Ele se adapta. Ele parcela, improvisa, desiste de entender. O sistema tributário é tão complexo que deixa de ser questionado. Torna-se ruído de fundo e talvez esse seja o maior contraste com 1792.

Naquele tempo, 20% provocaram conspiração. Hoje, mais que o dobro produz resignação.

Tiradentes virou feriado, virou nome de cidade, de praça, de avenida, de escola. Foi transformado em símbolo e, como todo símbolo domesticado, perdeu sua capacidade de incomodar, mas lembrar de Tiradentes de verdade exige mais do que reverência. Exige desconforto.

Ele não lutou apenas contra um imposto. Lutou contra um sistema percebido como ilegítimo. E essa é a pergunta que evitamos fazer hoje: o nosso sistema é legítimo aos olhos de quem o sustenta?

Quando o cidadão paga muito, não entende quanto paga, não vê retorno claro e não consegue mudar isso de forma efetiva, o problema deixa de ser técnico.

Ele se torna politico e profundamente moral.

Não falta diagnóstico no Brasil. Falta ruptura.

Ruptura não significa revolução violenta. Significa algo mais difícil: recusar a normalização do absurdo. Exigir transparência real, simplificação tributária verdadeira, responsabilidade no gasto público, não como promessa eleitoral, mas como cobrança permanente.

Tiradentes morreu porque acreditava que era possível romper. Nós seguimos vivendo como se não fosse.

Nos acostumamos a tudo: ao peso, à confusão, à ausência, à injustiça. O que antes gerava revolta, hoje gera adaptação.

E, pouco a pouco, fomos sendo treinados, não pela força, mas pela repetição.

Adestrados a aceitar. Adestrados a não perguntar. Adestrados a não esperar.

Quando uma sociedade deixa de se indignar, ela não apenas perde sua força, mas sua consciência.