CRISTIANE FRAMARTINO BEZERRA

02/03/2026

Com o passar dos anos, descobri a quantidade de percepções preciosas que a maturidade foi trazendo. De fato, como é preciso o crivo do tempo para que algumas descobertas muto significativas sejam feitas.

Quem me conhece sabe o imenso amor que tenho por minha mãe, Catarina. Minha melhor amiga, para quem desejo sempre voltar correndo quando viajo ou quando algo acontece. Meu porto seguro, meu tudo. Porém, nem sempre foi assim. Na adolescência, minha fase crítica e algumas vezes revoltada, minha língua ácida normalmente se voltava contra a minha mãe. Elementar, caro leitor, meu pai era o herói. Mas minha mãe era a dona dos nãos e do controle sobre a casa.

O galante Sebastião era caminhoneiro. Pelas estradas e nas cidades por onde seguia, era admirado. Sempre risonho, alegre... Ficava muitos dias fora. Quando regressava, era a festa! Trazia comida boa, alegria, fazia grandes compras, os domingos eram uma celebração só com sua presença.

Já minha mãe tinha que administrar cuidadosamente os recursos que ficavam sob sua responsabilidade, até a próxima volta, até o próximo “frete”. Mas, para crianças, que entendimento ter sobre os desejos por chocolates, iogurtes, bolachas recheadas? Eu e meu irmão tínhamos que acompanhar minha mãe nas suas idas ao centro da cidade, aos bancos e supermercados. Era ela que fazia tudo pela família e pelo meu pai, sempre fora. E sempre tinha que ter uma recompensa. Salgadinho na “Alzira” ou lanche e sorvete nas “Americanas”! Nem sempre possível.

Demorou para que eu percebesse o quão difícil foi a vida da minha mãe. Demorou muito para que eu pudesse compreender e admirar como foi capaz de cuidar tão bem de cinco filhos e não permitir que nunca nos faltasse o principal: o alimento na mesa diariamente.

Dou Graças a Deus pela bênção do tempo. Pela maturidade que me fez enxergar a legítima Mulher Maravilha que sempre tivemos em casa. Uma das cenas muito vivas na minha memória é a de uma omelete imensa. Delicioso. A cebolinha vinha do quintal de casa. Mas, por vezes, ela tinha apenas um ou dois ovos e conseguia fazer uma multiplicação silenciosa e festiva. Ficávamos esperando sua obra de arte ficar pronta. E ela dividia em partes iguais para todos. Porém, quantas vezes eu devo ter pedido mais e ela deve ter cedido a sua parte. Talvez venha daí sua paixão por arroz. Imagino quantas vezes seu prato foi feito de uma parcela significativa de arroz e feijão e pouco ou quase nada das misturas deliciosas que ela inventava para nos agradar o paladar.

Há tempos, tive a percepção do quanto ela e muitas mães lutam silenciosamente para que nada falte aos seus filhos. A lembrança de quantas vezes ela teve que abrir mão daquilo que era precioso para mim e meu irmão, na fila do caixa do supermercado. E meu choro era escandaloso muitas vezes. Não entendia por que as nossas coisas tinham que ser deixadas pra trás. O dinheiro dava para o básico, para o que era imprescindível para alimentar tantas bocas...

Ainda bem que crescemos bem e passamos a compreender suas limitações e seu grande amor por nós. Eu e meus irmãos desenvolvemos algo muito curioso, talvez muito devido às necessidades que passamos na infância. Chegamos muitas vezes a vender banana ou outras coisas de porta a porta, para auxiliar nas despesas. Hoje, quando vemos alguém vendendo algo na porta ou em outros locais, normalmente temos a tendência de comprar e ajudar. Assim como sofro ao ver alguém tendo que deixar compras que não consegue pagar nos caixas de supermercado. Em algumas ocasiões, consegui ajudar de alguma forma e isto me deixou muito feliz.

Não tenho certeza se seria suficiente alguém me contar, quando criança ou adolescente, das dificuldades por que passam as mães, especialmente as que não têm os pais presentes ou aqueles que trabalham distantes e nem sempre conseguem enviar os recursos suficientes para todas as demandas de uma casa, mas, atualmente, sempre que posso e estou em contato com os jovens, nas minhas palestras ou aulas conto da multiplicação dos ovos que minha mãe realizava, aumentando com leite, farinha, amido de milho, temperos diversos, para que, por vezes, um ou dois ovos se transformassem na melhor omelete que a gente já havia comido! Se tivesse um pouco de queijo ralado então, o banquete estava completo! Para que também observem e respeitem as limitações de suas famílias quando não conseguem prover tudo o que desejam.

Quanta gratidão manifesto hoje à minha Mãezinha e a todas as preciosas mães que não permitem que seus filhos vejam seus olhos tristes e seus corações sofridos. Que possamos passar todo o tempo possível exaltando aos que procuram usar a criatividade para tornar a vida de seus filhos um pouco melhor, pelos pratos que oferecem, pelos deliciosos bolos que inventam com poucos ingredientes, mas colocando sempre a pitada certa de compaixão e afeto!

 Muito Amor e Luz pra Você!

 

Cristiane Framartino Bezerra

Historiadora de Religiões, Escritora, Cerimonialista, Celebrante, Produtora Cultural, Angelóloga

Atendimento Angélico: 16 999941696 ou Instagram: @crisbezerrarp