Reciprocidade: quando a resposta custa mais do que a provocação
Há palavras que carregam consigo uma aparência irresistível de justiça. Reciprocidade é uma delas.
Se alguém nos trata bem, retribuímos. Se nos estende a mão, oferecemos a nossa e, quando nos agride, o primeiro impulso humano é responder na mesma moeda. Parece justo. Talvez por isso a reciprocidade seja tão sedutora também nas relações entre países.
Os Estados Unidos decidiram elevar tarifas sobre produtos brasileiros. O Brasil reagiu acionando a Lei da Reciprocidade Econômica. À primeira vista, a equação parece simples: se eles taxam nossos produtos, taxamos os deles, mas comércio internacional raramente admite equações tão simples.
A história está repleta de guerras comerciais que começaram com discursos patrióticos e terminaram com consumidores pagando preços maiores, empresas perdendo mercados e trabalhadores perdendo empregos.
Em 1930, os Estados Unidos aprovaram a célebre tarifa Smoot Hawley. A intenção era proteger agricultores e indústrias americanas dos produtos estrangeiros. Outros países responderam. O comércio internacional despencou e uma crise que já era grave tornou-se ainda mais profunda. Décadas depois, a lição continua desconfortavelmente atual: erguer uma barreira é fácil. Difícil é controlar as barreiras que serão erguidas em resposta.
Donald Trump fez das tarifas um dos principais instrumentos de sua política externa. O raciocínio é compreensível do ponto de vista político: utilizar o tamanho do mercado americano como instrumento de negociação. Quem deseja vender para o maior mercado consumidor do planeta precisa aceitar determinadas condições.
O problema começa quando tarifas deixam de corrigir desequilíbrios comerciais e passam a carregar disputas políticas.
O Brasil tem razões para contestar as medidas americanas. As novas tarifas atingiram setores importantes da indústria brasileira e criaram uma desvantagem competitiva relevante para nossas exportações. O governo brasileiro abriu consultas, recorreu aos instrumentos multilaterais e acionou a legislação de reciprocidade.
Até aí, defender os interesses nacionais não é apenas legítimo. É obrigação de qualquer governo.
Reciprocar como? E a que preço?
Se o Brasil aumentar tarifas sobre produtos americanos, quem pagará essa conta?
Donald Trump?
Certamente não.
Parte dela será paga pelo importador brasileiro. Outra parte pela indústria que utiliza máquinas, componentes ou insumos americanos e, no final da cadeia, uma parcela inevitavelmente chegará ao consumidor.
Essa talvez seja a maior ironia das guerras comerciais: governos disparam as armas, mas raramente são eles que recebem os tiros.
Adam Smith percebeu isso há quase dois séculos e meio. A riqueza das nações não nasce do isolamento, mas da capacidade de cada sociedade produzir, trocar e prosperar através dessas trocas. O comércio não elimina conflitos entre países, mas cria algo extraordinariamente poderoso: interesses comuns.
Quando duas nações negociam bilhões de dólares entre si, milhares de empresas e milhões de trabalhadores passam silenciosamente a depender da continuidade daquela relação.
Por isso é interessante observar o que aconteceu nos últimos dias.
O Brasil acionou formalmente sua Lei da Reciprocidade. Poderia parecer o início de uma escalada, mas, quase imediatamente, o discurso começou a mudar.
O próprio governo passou a insistir que reciprocidade não significa necessariamente retaliação. Empresários pediram negociação e agora surge a indicação de que eventuais medidas brasileiras podem sequer ser aplicadas neste ano.
Talvez isso revele algo mais importante do que qualquer tarifa.
A melhor reciprocidade pode ser aquela que nunca precisa ser aplicada.
Uma lei dessa natureza é importante justamente porque coloca uma arma sobre a mesa, mas uma arma diplomática pode ser mais poderosa enquanto permanece sobre a mesa do que depois de disparada.
Existe uma diferença enorme entre firmeza e bravata.
Um país soberano precisa saber dizer não. Precisa defender suas empresas, seus trabalhadores e seus interesses, mas soberania não se mede pela quantidade de adversários que conseguimos produzir.
Mede-se também pela capacidade de transformar conflito em negociação.
Brasil e Estados Unidos possuem uma relação construída ao longo de mais de dois séculos. Governos passaram. Presidentes discordaram. Houve aproximações e distanciamentos, mas os interesses econômicos permaneceram.
É justamente isso que precisa ser preservado.
Não se trata de aceitar passivamente uma tarifa considerada injusta. Tampouco de responder a cada tarifa americana com uma tarifa brasileira equivalente, como crianças que discutem quem bateu primeiro.
Diplomacia existe exatamente para interromper essa lógica.
Há ainda uma dimensão humana frequentemente esquecida quando presidentes falam em bilhões de dólares. Por trás de cada percentual, existe alguém.
Existe o empresário que perdeu competitividade de uma manhã para outra. O produtor que fez investimentos contando com determinado mercado. O trabalhador que não conhece Washington nem Brasília, mas pode descobrir as consequências dessa disputa quando seu emprego desaparecer, e existe também o consumidor americano que talvez passe a pagar mais caro pelo produto brasileiro.
No fim, as guerras comerciais possuem uma estranha característica: os governos anunciam as tarifas, mas são pessoas comuns que pagam por elas.
Talvez seja por isso que a palavra reciprocidade precise ser utilizada com cuidado.
Reciprocidade não deveria significar: você me prejudicou, portanto vou prejudicá-lo.
Entre nações maduras, deveria significar algo diferente: se você respeitar meus interesses, respeitarei os seus. Se quiser negociar, encontrará em mim um parceiro, mas, se tentar impor sua força, encontrará do outro lado um país preparado para defender-se.
Há uma enorme diferença entre ter força e precisar demonstrá-la.
O Brasil fez bem em colocar a reciprocidade sobre a mesa.
Agora, precisa ter a grandeza de saber quando não usá-la.
Porque, algumas vezes, a maior demonstração de força de um país não está na capacidade de retaliar.
Está na capacidade de não precisar fazê-lo.
