AMÉRICO PERIN

Quando bate uma saudade
19/02/2026

Na noite anterior, quase desmontávamos nossos instrumentos inteiros, era um tal de lubrificar, dar brilho, era um zelo enorme. Eu e meu primo Ernesto, cada qual preparando sua “ferramenta” de Carnaval para os cinco dias que se iniciariam no dia seguinte.

O Clube Parnaibano, salão pequeno, mesas para sentar não havia, a ordem era curtir a alegria durante toda a noite. E ela chegou, o sol daquele dia foi-se embora e nossos corações pulsavam mais forte à medida que as portas do clube se abriam...

Crianças ainda, eu e o Nestinho nos juntávamos aos demais músicos num palco pequenino, onde tocaríamos as marchinhas.

Seis músicos e um cantor cuja voz bem treinada soava acusticamente de um megafone, os músicos em pé rodeavam as estantes com as partituras.

Eu, 12 anos de idade ainda, vez ou outra “escorregava” num sustenido e o Tio Bilo, nosso maestro, com toda paciência pedia para que eu acertasse a afinação do clarinete com os meus parceiros.

E as marchinhas com suas letras cheias de trocadilhos e sátiras políticas, sempre com aquele tom de “rir pra não chorar”, atravessavam a noite esbanjando alegria. Ah! As marchinhas... Com seu ritmo leve, perfeito pra quem gosta de dançar sem perder o fôlego — afinal, marchinha é mais sobre cantar junto do que sobre suar na pista.

Ainda hoje, trago na memória a imagem de uma roda de amigos cantando “Mamãe eu quero” com confete no cabelo e serpentina no pescoço. Lembro também dos olhares furtivos trocados com a moreninha bonita que, acabando o baile, ia com as amigas rapidamente cada uma para sua casa, enquanto, com a cabeça cheia de imaginação, eu e o meu primo subíamos a estrada até chegarmos na “casa da Light,” moradia da nossa família por mais de 100 anos e lugar onde se sentia o aroma suave exalado pelas flores do “jardim da nona Cesira”.

Ah, Santana de Parnaíba com apenas suas três ruas encravadas no morro que, sim, tinham nomes, mas para nós eram somente a rua de “cima, rua do meio e rua de baixo, onde ficava a casa da moreninha bonita” ...

“Hoje, no meu peito é só saudade, do pungir da mocidade, do bater do coração...”