BETO BELLINI
Em empresas brasileiras e internacionais, cresce a preocupação com um fenômeno silencioso: profissionais que buscam se destacar diminuindo colegas. Essa prática, longe de ser apenas um traço de personalidade, tem impacto direto na produtividade, na saúde mental e na cultura corporativa.
Segundo especialistas em recursos humanos, a chamada competitividade negativa é marcada por atitudes como ironizar conquistas, expor erros em público e desqualificar colegas. A raiz desse comportamento está ligada a inseguranças pessoais e ao medo de perder relevância.
Um levantamento publicado pela Fast Company Brasil mostra que líderes medíocres são mais comuns do que se imagina e que seu impacto é alto: funcionários desengajados, aumento da rotatividade e queda na produtividade, o que afeta diretamente os lucros das empresas.
No serviço público, onde a estabilidade e a hierarquia são características marcantes, é comum observar indivíduos que buscam afirmar-se não pelo mérito próprio, mas pela desqualificação alheia. Essa prática se manifesta em diferentes níveis: desde comentários depreciativos sobre colegas até tentativas de minar reputações para conquistar espaço político ou administrativo.
Por vezes, tratam parceiros como inimigos para justificar a própria incapacidade.
Em vez de investir em competência técnica, atualização profissional ou qualidade no atendimento à população, alguns servidores recorrem à estratégia de enfraquecer os demais. O raciocínio é simples: se o outro parece menos capaz, eu pareço mais relevante. No entanto, essa lógica não gera resultados concretos para a sociedade. Apenas alimenta disputas internas e desgasta equipes.
Os impactos institucionais acontecem no clima organizacional, onde ambientes marcados por desqualificação tendem a ser mais tensos e menos colaborativos. Na produtividade, a energia que poderia ser direcionada ao serviço público é desviada para conflitos pessoais. A imagem institucional é afetada quando práticas de desvalorização se tornam públicas. A confiança da sociedade nas instituições é abalada.
Pesquisadores de administração pública apontam que esse comportamento está ligado à falta de mecanismos de avaliação por mérito. Em estruturas onde a progressão depende mais de tempo de serviço ou relações políticas do que de resultados, abre-se espaço para estratégias de autopromoção baseadas na desqualificação.
Existem alguns caminhos possíveis, como fortalecimento da meritocracia, com avaliações periódicas e transparentes de desempenho que reduzem o espaço para práticas tóxicas: a cultura de cooperação, em que programas de capacitação e incentivo ao trabalho em equipe podem neutralizar comportamentos nocivos; a valorização da ética através de códigos de conduta e mecanismos de responsabilização que ajudam a conter atitudes que prejudicam colegas e instituições.
Indivíduos que buscam afirmar-se diminuindo os outros não apenas revelam mediocridade, mas também comprometem a missão essencial do serviço público: servir à sociedade. O verdadeiro destaque nasce da competência, da ética e da capacidade de construir junto.
Gilberto César Ortolan Bellini, mestre em administração, professor da Fatec/STZ e Unip/RP, membro da ASEL - Academia Sertanezina de Letras - e diretor da Rabugentos Cia Teatral
