O voto que depositamos no tanque

O voto que depositamos no tanque
21/07/2026

Nem toda escolha acontece diante de uma urna. Algumas acontecem diante de uma bomba de combustível.

 

Há uma frase atribuída ao grande economista John Keynes que atravessa gerações: “A maior dificuldade não está em aceitar novas ideias, mas em escapar das antigas”. Talvez ela explique um dos fenômenos mais curiosos do Brasil.

Somos o país que transformou a cana-de-açúcar em energia, desenvolveu o carro flex e construiu uma das mais bem-sucedidas experiências de biocombustíveis do mundo. Criamos uma tecnologia admirada internacionalmente, mas continuamos presos a um hábito do século passado.

Ninguém diz que vai ao posto de etanol, mas ao posto de gasolina. A linguagem revela aquilo que a cultura ainda não conseguiu abandonar.

Hoje, em São Paulo, o etanol custa cerca de 60% do preço da gasolina. Para um veículo flex, essa relação torna sua utilização economicamente vantajosa. A matemática é simples. O comportamento, nem tanto.

Existe uma conhecida brincadeira em Boston: “os alunos de Harvard não sabem matemática, e os do MIT não sabem ler”. A graça está justamente no exagero. Mas ela inspira uma provocação. Não é preciso estudar em Harvard nem no MIT para perceber que, quando dois combustíveis movem o mesmo carro e um deles custa muito menos, a decisão se torna inquestionável e, ainda assim, milhões de brasileiros não fazem.

O carro flex deu ao motorista liberdade para decidir. Mas liberdade só existe quando é exercida. Comprar um veículo flex e abastecê-lo sempre com gasolina é como adquirir um computador de última geração para usá-lo apenas como máquina de escrever.

O etanol não é apenas um combustível. É uma cadeia produtiva brasileira. É renda no interior, inovação tecnológica, empregos, menor emissão de carbono e menor dependência de derivados de petróleo. Poucos países possuem uma vantagem competitiva construída ao longo de décadas como essa.

O mais curioso é que, desta vez, não há conflito entre bolso e consciência. O que beneficia o motorista também beneficia o país.

Talvez o maior obstáculo ao etanol nunca tenha sido tecnológico. Sempre foi cultural.

Estamos em mais um período eleitoral. Milhões de brasileiros discutirão o futuro do país e exercerão seu direito de voto. Mas existe outra votação que acontece todos os dias, silenciosamente, diante da bomba de combustível.

Quem dirige um carro flex também vota.

Vota no petróleo ou na cana.

Vota na importação ou na produção nacional.

Vota na energia fóssil ou na renovável.

Vota em uma economia que envia riqueza para fora ou em outra que a mantém circulando dentro do Brasil.

Naturalmente, cada cidadão tem o direito de escolher o combustível que preferir. Mas nenhuma escolha é neutra. Toda escolha produz consequências.

Os engenheiros fizeram sua parte. Os produtores fizeram sua parte. A indústria automobilística fez sua parte.

Agora falta a nossa.

Talvez esteja na hora de deixarmos de chamar esses estabelecimentos de postos de gasolina. Eles sempre foram postos de escolha e talvez a maior inovação do carro flex nunca tenha sido o motor, tenha sido entregar ao cidadão o poder de decidir, todos os dias, que país deseja abastecer.

Porque alguns votos são depositados nas urnas. Outros, nós depositamos no tanque.