BETO BELLINI
A vida segue tensa. A ansiedade se multiplica, a paciência encurta e as relações humanas parecem perder consistência. Está cada vez mais difícil aceitar a perspectiva do outro. Falta escuta, falta empatia, falta a capacidade de conviver com diferenças sem transformar tudo em conflito.
Vivemos um tempo em que o simbólico perde espaço para o imediato. Hoje, muitas vezes, importa mais ter do que ser. Os bens materiais, a ostentação e a aparência ganharam protagonismo, como se o valor de alguém pudesse ser medido pelo que exibe. O problema não está em conquistar conforto ou prosperidade, mas em transformar isso no centro da existência.
E, claro, algumas coisas me incomodam profundamente.
Me incomodam as fake news espalhadas com velocidade impressionante nas redes sociais. Notícias falsas se tornam armas, dividem famílias, rompem amizades e inflamam debates vazios. Poucos verificam, muitos compartilham, e quase todos se sentem donos da verdade. A mentira, quando repetida muitas vezes, passa a circular com aparência de fato.
Me incomoda o descaso com temas realmente importantes — educação, saúde, cultura, respeito, meio ambiente, desigualdade social — enquanto a futilidade recebe aplausos, curtidas e atenção diária. Questões sérias são tratadas com indiferença, enquanto banalidades ocupam espaço nobre no debate público.
Me incomoda também a pressa generalizada. Ninguém parece ter tempo para ouvir, refletir ou amadurecer ideias. Tudo precisa ser imediato: respostas, opiniões, julgamentos. Perdemos o valor da pausa e da ponderação.
Me incomoda a intolerância disfarçada de opinião. Discordar virou motivo para atacar, humilhar ou cancelar. Em vez de diálogo, escolhe-se o confronto. Em vez de construir pontes, muitos preferem cavar abismos.
Me incomoda, ainda, o fanatismo político que transforma representantes públicos em ídolos intocáveis e adversários em inimigos absolutos, como se pensar diferente fosse crime. Incomoda-me também ver divergências religiosas sendo usadas para semear intolerância, quando a fé deveria aproximar, acolher e inspirar respeito entre as pessoas. E me incomoda a utopia criada em torno do esporte, tratado muitas vezes como solução mágica para problemas profundos ou como campo de guerra entre torcidas e paixões cegas, quando deveria ser espaço de convivência, disciplina, saúde e celebração coletiva.
Mas talvez o que mais incomode seja perceber que tudo isso vem se naturalizando. Como se fosse normal viver irritado, dividido, distraído e emocionalmente exausto.
Ainda assim, há esperança. Sempre há. Ela nasce quando alguém decide ouvir antes de julgar, verificar antes de compartilhar, respeitar antes de atacar e ser antes de aparentar. Pequenos gestos continuam sendo revolucionários em tempos de superficialidade.
O que me incomoda de verdade não é apenas o mundo como está. É quando desistimos de melhorá-lo.
Gilberto César Ortolan Bellini, mestre em administração, professor da Fatec/STZ e Unip/RP. Membro da ASEL – Academia Sertanezina de Letras e da Rabugentos Cia Teatral
