CRISTIANE FRAMARTINO BEZERRA

O que celebrar
09/03/2026

Certa vez, assistindo a uma palestra do inesquecível e maravilhoso Psiquiatra Doutor Adilson Rodrigues, ouvi algo que mexeu muito comigo. Ele disse que muitas vezes o que nos incomoda na outra pessoa é exatamente o que temos a observar e melhorar em nós mesmos. De imediato reagi mentalmente, como assim eu ser igual a alguém que me irrita muito com seu jeito arrogante, prepotente, como assim, eu que sempre me considerei um exemplo de cordialidade e respeito às opiniões alheias...

Mas depois com mais calma fui observando que competia tanto quanto a outra pessoa pela liderança ou por ter razão. Comecei a identificar de fato alguns pontos comuns. E doeu perceber o quanto o Dr. Adilson estava certo.

Recentemente, decidi assistir a uma série colombiana inspirada numa história real, “Maria, a caprichosa”, e confesso que estou até agora tentando entender quais são os caprichos da “Maria”, que foi sendo levada pela vida, creio que mais do que a música do Zeca Pagodinho... Desejou e sonhou com estudos e liberdade e acabou sendo mãe aos quinze anos, tendo que aprender a lidar com responsabilidades e o pior de tudo, relacionamentos abusivos e complicados.

Em alguns momentos quis parar de assistir, tamanha revolta de ver a personagem aceitar tantos desaforos e maus-tratos. Traições inclusive. Nos seus dois relacionamentos. Aceitando praticamente tudo. Tentava até se impor e brigar algumas vezes, mas acabava cedendo... O incômodo se instalou na minha alma. Fui percebendo quantas vezes aceitei menos do que merecia ou devia. Quantas vezes fui enganada e continuava acreditando, achava que tudo ia mudar pra melhor.

Demorou muito tempo, muitos livros, terapia, acompanhar mulheres em situação de violência doméstica, mulheres assassinadas, para perceber o quanto nossos sonhos acabam mortos tantas vezes por priorizamos o outro, porque enaltecemos seres que não são nada do que pensamos ou do que projetamos.

De fato, muitas coisas colaboraram no meu despertar. Livros de autoajuda sobre relacionamentos, inclusive. Mas uma frase foi a maior motivadora e desencadeadora de um processo de auto percepção, reconhecimento pessoal e valorização interna: “Se dói, não é amor”! Lembro que quando li parei para refletir e meditar sobre ela durante um bom tempo. Depois colei no espelho do banheiro e na geladeira. Passei em revista os tantos choros, abandonos, maus-tratos, desrespeitos... Consegui parar de me iludir com outras frases feitas que apenas mascaravam os relacionamentos completamente desprovidos do verdadeiro sentimento, de admiração, fortalecimento, reciprocidade.

E sim, quando finalmente me amei de verdade, passei a ver a importância de ser Mulher, de ocupar um espaço especial na vida e na sociedade, de pertencer a um mundo muitas vezes machista e hostil, de transitar por cargos públicos e pela política, mas, acima de tudo, não permitir mais relacionamentos deficitários, pobres em afeto e companheirismo.

Hoje percebo que honro quem eu sou, honro o Dia da Mulher, o Mês que celebra a força de cada uma que procura fazer deste Planeta um lugar melhor para se viver, ainda que no espaço restrito do seu Lar, da sua rua, do seu trabalho.

Temos sim o que celebrar! Apesar de estarmos diante de números alarmantes de feminicídios, exatamente por muitas vezes não acreditarmos que quem nos maltrata com palavras e atitudes pode sim por fim à nossa existência... Mas estamos falando mais sobre o que nos incomoda, exigindo mais das leis e dos governos, dedicando mais voz e mais espaço às nossas causas!

Que possamos celebrar também mais mulheres onde elas quiserem estar. Decidindo políticas públicas mais efetivas na defesa dos nossos direitos. Em nome de tantas que lutaram pelo que hoje temos acesso, pelas que perderam suas vidas tentando oferecer vidas melhores às gerações futuras. Vamos enxergar o que nos incomoda, para que possamos tomar atitudes efetivas em prol do nosso crescimento e do crescimento de nossas meninas. Também dos nossos meninos. Que eles aprendam a respeitar cada vez mais as meninas e elas aprendam cada vez mais a se amar e a se valorizar!

Que tenhamos cada vez mais motivos pra celebrar as mulheres e suas conquistas! E uma humanidade toda mais inteira e mais feliz!

Muito Amor e Luz pra Você!

 

Cristiane Framartino Bezerra

Historiadora de Religiões, Escritora, Cerimonialista, Celebrante, Produtora Cultural, Angelóloga

Atendimento Angélico: 16 999941696 ou Instagram: @crisbezerrarp