O menino é o pai do homem
Em 1981, quando prestava o vestibular para Engenharia, a FUVEST propôs como tema de redação a frase “O menino é o pai do homem”. Quase meio século depois, constato a força e a atualidade dessa afirmação. O que parecia apenas um mote literário ou filosófico revelou-se, na prática da vida, uma verdade incontornável: a infância molda o adulto, e o destino de cada geração está diretamente ligado às condições oferecidas às crianças.
Ao longo desses 45 anos, a sociedade brasileira mudou em diversos aspectos. A tecnologia avançou, os horizontes se ampliaram e novas formas de interação social surgiram. Mas um elemento permaneceu essencial: o papel da família e da educação como pilares na formação do ser humano. A criança que cresce em ambiente de afeto, estímulo cultural e valores éticos sólidos carrega consigo as bases de uma vida adulta mais consciente, responsável e cidadã. Do mesmo modo, é inegável que a ausência dessas condições cobra um preço alto. Crianças privadas de oportunidades educativas, de saúde e de amparo social tendem a reproduzir, em sua vida adulta, as marcas da exclusão. Esse círculo vicioso perpetua desigualdades e compromete o futuro coletivo.
Vale lembrar que o tema é também o título de um dos capítulos da obra-prima de Machado de Assis, “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, reforçando sua profundidade literária e filosófica. Como disse Pitágoras: “Educai as crianças para que não seja necessário punir os adultos”. Essa máxima atravessa os séculos e dialoga diretamente com a reflexão proposta, mostrando que a base de uma sociedade justa e desenvolvida começa sempre na infância.
A frase machadiana, portanto, ultrapassa os limites de uma reflexão individual: ela é um alerta social. Ao investir na infância, a sociedade investe em si mesma. O menino de hoje é o profissional de amanhã, é o cidadão que tomará decisões políticas, econômicas e culturais que afetarão a todos. Quarenta e cinco anos depois daquela prova de vestibular, percebo que “O menino é o pai do homem” não é apenas um tema de redação, mas uma lição de vida. Uma lição que nos recorda da urgência de cuidar das novas gerações, pois nelas repousam a semente de um país mais justo, humano e solidário.
Paulo Roberto Garcia - Engenheiro de Produção – USP
