AMÉRICO PERIN
Na mesa do bar, entre uma cerveja e outra, na roda de conversa, ele ajeitou os óculos, pigarreou e anunciou com solenidade: “Eu sou de centro”. Os amigos se entreolharam, alguns riram por dentro, outros fingiram acreditar. Afinal, quem já tinha visto o sujeito defender nacionalizações, citar Marx em churrasco e propor cooperativas até para o condomínio sabia que o tal “centro” dele ficava bem à esquerda do mapa. Mas ele insistia. Dizia que era moderado, que buscava equilíbrio, que não gostava de extremos.
E ele repetia com convicção: “Eu sou de centro”. Os amigos já nem discutiam mais. Era como ouvir alguém dizer que prefere salada, enquanto devora o rodízio de picanha.
O sujeito tinha mania de propor assembleias até para decidir o sabor da pizza. Falava em coletivizar o controle remoto da sala, em nacionalizar o boteco da esquina e em redistribuir igualmente as batatas fritas — mesmo quando eram dele. Mas, às vésperas de novas eleições, quando alguém o chamava de comunista, ele se ofendia: “Eu? Extremista? Jamais! Sou moderado, equilibrado, racional”.
O problema é que seu “equilíbrio” era como uma balança com um saco de cimento de um lado e uma pena do outro. Sempre pendia para o mesmo canto. E, ainda assim, ele insistia em se apresentar como centrista, talvez porque “centro” soa mais palatável em reuniões de família. Afinal, é mais fácil dizer que está no meio do caminho do que admitir que já atravessou a rua inteira e está plantando bandeira do outro lado.
No fim, todos riam. Não porque acreditassem nele, mas porque sabiam que, se um dia o mundo fosse realmente governado pelo “centro dele”, até o bar teria conselho deliberativo e ata registrada em cartório.
E para provar sua moderação, ele fez questão de pagar a conta de forma coletiva: cada um deixou o dinheiro na mesa, ele recolheu tudo e anunciou que o caixa seria administrado por um comitê popular. Resultado: ninguém viu o troco até hoje.
Ah, quase ia esquecendo. O Bar era de um amigo dele e ficava em Paris. O avião que o levara para lá também era de um amigo dele.
Boa semana a todos. Se tudo der certo, volto na semana que vem. Até lá...
