BETO BELLINI
Havia, em uma pequena vila, um homem chamado Justino. Era conhecido por sua inteligência e por sua habilidade com os pincéis. Pintava paisagens magníficas, mas possuía uma estranha fraqueza: nunca admitia estar errado.
Certo dia, encontrou um espelho antigo na floresta. O objeto tinha um encanto peculiar. Em vez de refletir a realidade, mostrava apenas aquilo que a pessoa desejava ver. Justino ficou encantado.
Quando tratava mal um vizinho, o espelho lhe mostrava um homem justo corrigindo uma injustiça.
Quando ignorava o sofrimento de alguém, o espelho lhe devolvia a imagem de um grande benfeitor.
Quando suas escolhas prejudicavam a própria comunidade, o espelho exibia cenas nas quais ele aparecia como herói e salvador.
Com o tempo, Justino passou a consultar o espelho antes de qualquer decisão. Já não observava os fatos, nem ouvia conselhos. Bastava olhar para aquela superfície enevoada e encontrar uma explicação confortável.
Os moradores tentavam alertá-lo: Veja o que está acontecendo ao seu redor.
Mas Justino respondia: Não podem estar certos. Meu espelho mostra outra coisa.
Os anos passaram. A vila enfrentou dificuldades que poderiam ter sido resolvidas se todos encarassem a realidade. Porém, Justino sempre encontrava um novo argumento para justificar o injustificável.
Quando os fatos contrariavam suas crenças, ele culpava os fatos.
Quando as evidências se acumulavam, ele acumulava desculpas.
Quando a verdade batia à sua porta, ele fechava as janelas.
Até que um dia o espelho caiu ao chão e se partiu.
Pela primeira vez em muitos anos, Justino viu o próprio reflexo sem fumaça, sem adornos e sem desculpas. Percebeu então que não havia sido enganado pelo espelho. Havia sido enganado por seu desejo de acreditar nele.
Moral da fábula: A mentira mais difícil de vencer não é a que vem dos outros, mas a que fabricamos para proteger nossas certezas. A dissonância cognitiva transforma argumentos em escudos e a realidade em inimiga. Quem se recusa a rever suas crenças acaba prisioneiro delas.
Moral da fábula 2: A vida passa. Quem sabe, ali na frente, você não possa mais depender de seu protetor e precise mostrar competência para se manter?
Gilberto César Ortolan Bellini, mestre em Administração, professor da Fatec Sertãozinho e Unip RP, membro da ASEL - Academia Sertanezina de Letras - e da Rabugentos Cia Teatral.
