O galo só canta depois do rombo
Na mitologia grega, há uma história curiosa e, para nós, estranhamente familiar.
Afrodite, deusa da beleza, e Ares, deus da guerra, mantinham um caso secreto. Nada muito diferente de alianças improváveis que se formam longe dos olhos do público. Para garantir que não seriam surpreendidos, deixaram um sentinela de guarda. Sua função era simples: avisar antes da chegada do Sol, aquele que tudo vê.
Porém, o sentinela dormiu.
E como sempre acontece quando alguém dorme no momento errado, não foi o erro que causou escândalo, foi a exposição. O Sol apareceu, contou tudo a Hefesto, marido traído e trabalhador incansável. Este, em vez de impedir o romance, fez algo mais sofisticado: preparou uma rede invisível e capturou o casal em pleno ato, expondo-os ao riso e ao julgamento de todo o Olimpo.
O castigo do sentinela foi exemplar: transformado em galo, passou a cantar todas as manhãs antes do nascer do Sol, condenado a nunca mais falhar.
Seria uma história antiga, não fosse ela tão contemporânea.
No Olimpo brasileiro, também há seus deuses ocupados, seus amores estratégicos e seus sentinelas sonolentos. Durante anos, relações cruzadas, interesses compartilhados e movimentos silenciosos circularam com a tranquilidade de quem sabe que a vigilância raramente acorda a tempo.
E quando acorda, já é dia.
A CPMI do INSS surge, então, como a rede de Hefesto: não para impedir o que aconteceu, mas para revelar o que já aconteceu há muito tempo. Não é um instrumento de prevenção. É um mecanismo de exposição. Uma encenação institucional que transforma o inevitável em espetáculo.
Porque, no Brasil, o problema raramente é o fato em si. O problema é o momento em que ele se torna impossível de ignorar.
Antes disso, há sinais. Alertas. Relatórios. Indícios. Há sempre alguém que viu, alguém que suspeitou, alguém que poderia ter cantado mais cedo. Mas o canto não vem ou não é ouvido.
Até que o Sol nasce.
E quando nasce, traz consigo a indignação organizada: manchetes, discursos, comissões, convocações. Descobre-se, com solenidade, aquilo que já era conhecido em voz baixa e instala-se a CPMI, esse ritual republicano de transformar previsibilidade em surpresa.
Enquanto isso, o sentinela segue cumprindo sua pena.
Transformado em galo, ele canta todos os dias. Mas, ao contrário do mito, seu canto já não antecipa o amanhecer. Ele apenas o acompanha. Às vezes, chega até depois, quando o dia já está claro, o dano consolidado e a investigação em curso.
Talvez o erro não tenha sido o sentinela dormir.
Talvez o erro tenha sido acreditar que alguém realmente queria acordar.
No fim, como no Olimpo, ninguém é punido pelo que faz, mas por ser visto fazendo. E a função das redes, das comissões e dos escândalos não é evitar o próximo episódio, mas dar forma ao atual.
O sistema não é interrompido pelo escândalo.
Ele é organizado por ele.
E assim seguimos, entre deuses ocupados, alianças discretas e galos disciplinados, esperando que, um dia, o canto venha antes do amanhecer.
Mas, até lá, o Sol continuará fazendo o seu trabalho.
Sozinho.
