O domingo que continuará por oito anos

O domingo que continuará por oito anos
19/10/2026

Na noite de domingo, quando as urnas começaram a revelar seus números, o Brasil inteiro parecia interessado numa única pergunta: quem disputaria a Presidência da República no segundo turno? Entretanto, enquanto milhões de olhos acompanhavam a contagem dos votos presidenciais, outra decisão, silenciosa e de consequências duradouras, já estava tomada. Os brasileiros haviam escolhido 54 senadores. E aqueles mandatos, nascidos de alguns segundos diante de uma urna, permanecerão até janeiro de 2035.

Oito anos. Tempo suficiente para uma criança aprender a ler e chegar à adolescência. Para um jovem concluir a universidade e começar sua vida profissional. Para famílias nascerem, gerações envelhecerem e o Brasil atravessar diferentes governos. Durante todo esse período, os representantes escolhidos naquele domingo estarão entre os responsáveis por decisões fundamentais da República.

A renovação foi expressiva. Quarenta das 54 cadeiras em disputa serão ocupadas por senadores que não conseguiram a reeleição ou que não exerciam o mandato. O Partido Liberal elegeu 19 representantes e deverá iniciar a próxima legislatura com 28 integrantes, a maior bancada da Casa. É uma configuração diferente daquela que os brasileiros conheceram nos últimos anos, resultado de escolhas feitas em todos os estados da Federação.

Há algo que os números, por mais impressionantes que sejam, não conseguem contar. Eles registram o resultado, mas não reproduzem o instante em que cada cidadão tomou sua decisão. Não mostram o trabalhador que saiu cedo de casa, a professora que enfrentou a fila, o agricultor que percorreu quilômetros até sua seção eleitoral ou o jovem que, pela primeira vez, percebeu que também participava da construção política de seu país.

Talvez seja essa uma das imagens mais bonitas e mais exigentes da democracia: milhões de pessoas que jamais se conhecerão contribuindo para definir quem exercerá o poder em seu nome.

O Senado tem uma particularidade que, frequentemente, escapa à atenção popular. Seus integrantes não participam apenas da elaboração das leis. A Constituição lhes atribui responsabilidades específicas no funcionamento do Estado, incluindo a aprovação de indicações para o Supremo Tribunal Federal e competências para processar e julgar determinadas autoridades nos casos previstos em lei.

É por isso que a composição daquela Casa importa tanto. O Senado participa do delicado equilíbrio entre instituições que precisam ser independentes, mas não podem atuar fora dos limites constitucionais. Nenhum poder recebeu autorização para substituir a República por sua própria vontade. Todos receberam atribuições, responsabilidades e limites.

A eleição ocorreu num momento em que esse relacionamento institucional já ocupava lugar central no debate brasileiro. Nos dias seguintes à apuração, movimentações do Supremo Tribunal Federal relacionadas aos processos dos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023 voltaram a chamar a atenção. Houve decisões e providências referentes ao cumprimento de penas, incluindo a progressão de regime de uma condenada, divulgada depois da eleição, embora assinada antes da votação.

A proximidade dos acontecimentos despertou perguntas. Mas perguntas não são provas, e a sequência das datas não basta para demonstrar que uma decisão judicial tenha sido tomada em consequência do resultado eleitoral.

O episódio, contudo, recorda a importância de uma questão maior: a confiança nas instituições.

Uma República precisa de tribunais independentes para aplicar a lei, de parlamentares capazes de exercer fiscalização e de cidadãos que possam questionar decisões públicas sem abandonar o respeito à ordem constitucional. A responsabilização pelos atos de 8 de Janeiro e a observância das garantias individuais pertencem ao mesmo compromisso com o Estado de Direito. Não deveriam ser tratadas como exigências incompatíveis.

O Senado que tomará posse em fevereiro terá de conviver com essas responsabilidades. Seus integrantes serão chamados a decidir sobre assuntos que hoje conhecemos e sobre outros que ainda nem surgiram. Haverá divergências, negociações, votações e escolhas difíceis. A nova composição não determina antecipadamente como cada senador agirá. O significado concreto daqueles votos será construído também pelo exercício dos mandatos.

É aqui que a eleição deixa de ser apenas um acontecimento político e se torna uma história sobre o tempo.

Na manhã seguinte à apuração, Brasília continuava exatamente onde sempre esteve. O Congresso mantinha suas duas cúpulas, o Supremo permanecia diante da Praça dos Três Poderes e o Palácio do Planalto conservava sua arquitetura conhecida. Quem atravessasse aquela praça talvez não percebesse nenhuma mudança na paisagem.

Mas o país já havia definido uma nova composição para dois terços de seu Senado.

Não foi necessário alterar a Constituição, interromper o funcionamento das instituições ou esperar que o tempo resolvesse sozinho as divergências da sociedade. O mecanismo previsto pela democracia havia funcionado: cidadãos escolheram representantes, mandatos foram definidos e uma nova legislatura começará segundo regras estabelecidas.

Existe uma responsabilidade imensa escondida nessa aparente simplicidade.

Os senadores eleitos não receberam propriedade sobre o poder. Receberam mandatos. Oito anos não são uma concessão para agir sem prestar contas; são oito anos durante os quais decisões poderão ser acompanhadas, questionadas e examinadas pela sociedade. A legitimidade que nasce nas urnas não dispensa a responsabilidade de cada dia.

Em 2030, quando o Brasil escolher novamente seu presidente, os senadores eleitos agora ainda estarão em seus mandatos. Em 2034, quando outra disputa presidencial movimentar o país, estarão chegando ao final dessa jornada. A eleição de outubro de 2026 já terá desaparecido das manchetes, mas continuará presente na composição do Senado.

Talvez seja esse o aspecto mais extraordinário de tudo o que aconteceu naquele domingo.

O eleitor permaneceu alguns instantes diante de uma urna. A República conviverá durante oito anos com as consequências daquela escolha.

Quando a apuração terminou, as escolas fecharam, os mesários voltaram para casa e as ruas retomaram sua rotina. A vida continuou com seus problemas, suas esperanças e suas incertezas.

A eleição havia terminado para 54 cadeiras do Senado.

A responsabilidade daqueles que as ocuparão estava apenas começando.

Porque o voto dura alguns segundos. Mas a confiança que ele entrega precisa ser honrada durante oito anos.