O dia em que o poder volta para casa
Amanhã, o Brasil viverá um daqueles dias que, de tão conhecidos, talvez tenham perdido parte de sua extraordinária beleza. Milhões de brasileiros sairão de casa, caminharão até uma escola, um clube, uma igreja ou outro local transformado por algumas horas em seção eleitoral e, diante de uma urna, farão algo que durante grande parte da história da humanidade foi negado à maioria dos homens: escolherão quem deverá governá-los.
Estamos tão acostumados à democracia que corremos o risco de esquecer que ela é uma conquista maravilhosa. Não é perfeita. Democracias escolhem bons governantes e também se enganam. Não eliminam corrupção, incompetência, injustiça ou decepção. A democracia não promete que faremos sempre a escolha certa. Promete algo talvez mais importante: que continuaremos tendo o direito de escolher, cobrar, discordar e, se julgarmos necessário, escolher novamente.
Durante quatro anos, assistimos ao poder à distância. Vemos palácios, ministros, parlamentares, tribunais e autoridades cercadas pelos símbolos de seus cargos. Amanhã, por algumas horas, essa lógica se inverte. O poder deixa os gabinetes e volta para casa. Volta para o cidadão.
Diante da urna, desaparecem por alguns segundos quase todas as diferenças que organizam nossa vida cotidiana. O rico possui um voto. O pobre possui um voto. O empresário, o empregado, o agricultor, a professora, o jovem que votará pela primeira vez e o velho brasileiro que já atravessou muitas eleições carregam exatamente o mesmo poder naquele instante. A fortuna não compra um segundo voto. O sobrenome não acrescenta outro. O cargo não multiplica a escolha. A influência termina diante daquela máquina silenciosa.
Talvez seja essa uma das imagens mais bonitas: a democracia não pergunta quanto temos, pergunta o que pensamos.
E ainda nos concede um privilégio que deveríamos tratar quase como sagrado: ninguém precisa saber a resposta. O voto é secreto porque a consciência precisa ser livre. Podemos discutir política durante meses, defender ideias, ouvir candidatos, discordar de amigos, mudar de opinião ou conservar convicções, mas, no instante da decisão, estamos sozinhos. Não existe chefe, governo, vizinho, família ou partido dentro daquela cabine. Existe apenas um cidadão e sua consciência.
Isso é liberdade e liberdade nunca deveria parecer banal.
Durante séculos, povos inteiros nasceram e morreram sem jamais serem consultados sobre quem os governaria. Reis receberam coroas por herança. Ditadores conservaram governos pela força. Homens foram perseguidos por discordar e jornais foram fechados por publicar. Nós, amanhã, simplesmente iremos votar. Há grandeza nessa normalidade.
Uma eleição também nos recorda de outra verdade: o Brasil não pertence a nenhum presidente, partido, grupo político, tribunal ou corrente ideológica. Quem ocupa posição de poder administra temporariamente algo que não lhe pertence. O País pertence aos brasileiros. Governos recebem o poder emprestado.
Amanhã, vence o prazo de parte desse empréstimo, e aqueles que desejam administrá-lo precisam novamente comparecer diante de seus verdadeiros proprietários.
Talvez essa consciência pudesse mudar a maneira como encaramos aqueles que votarão diferente. Nos últimos anos, transformamos a política brasileira numa espécie de guerra permanente. Amigos se afastaram, famílias discutiram e diferenças eleitorais se tornaram, muitas vezes, diferenças morais. Passamos a tratar o adversário político não como alguém que deseja outro caminho para o País, mas como alguém que não deveria sequer pertencer ao mesmo País.
É uma tristeza, porque na segunda-feira continuaremos todos brasileiros.
Quem apertará um número diferente do nosso continuará sendo nosso vizinho. Encontraremos essa pessoa no trabalho, na rua, no supermercado, na escola dos filhos. Compartilharemos os mesmos problemas, os mesmos impostos, os mesmos hospitais, as mesmas estradas e, gostemos ou não, o mesmo destino nacional.
Democracia não significa concordarmos. Significa termos aprendido a discordar sem precisarmos destruir uns aos outros.
Quem vencer não receberá o Brasil como propriedade. Receberá uma procuração temporária para servi-lo. E quem perder não deixará de ser brasileiro, não perderá o direito de criticar e não deverá ser tratado como inimigo. Ao final de uma disputa feroz, todos aceitam uma ideia civilizatória: a força será substituída pelo voto.
Naturalmente, votar não encerra nossa responsabilidade. O cidadão que escolhe também precisa fiscalizar, cobrar promessas, exigir honestidade e compreender que nenhum presidente resolverá sozinho os problemas de uma nação continental. O futuro não caberá inteiro dentro da urna. Mas uma direção começará ali.
Amanhã, talvez valha a pena parar por alguns segundos antes de apertar o botão. Não para pensar em pesquisas, torcidas ou discussões nas redes sociais, mas para compreender o tamanho daquele gesto. Ali, estará uma pequena parte da soberania de um país inteiro repousando na ponta de um dedo.
Depois, virá o som da urna confirmando a escolha. Um ruído breve, quase insignificante. Mas atrás dele existe uma história imensa: a história de homens e mulheres que conquistaram o direito de escolher, discordar, substituir governos e continuar construindo o País sem precisar destruir a democracia para fazê-lo.
Alguns celebrarão. Outros ficarão decepcionados. Talvez continuemos discutindo por mais algumas semanas. Mas há algo que todos poderíamos celebrar antes mesmo de conhecer o resultado: ainda podemos escolher, discordar, mudar e acreditar que o futuro não está definitivamente escrito.
Talvez seja essa a beleza essencial de uma democracia: ela jamais promete que acertaremos sempre. Ela apenas se recusa a retirar de nós o direito de tentar fazer melhor.
Amanhã, por algumas horas, o poder voltará para casa.
Que o encontremos com serenidade, que o exerçamos em liberdade e que, ao sairmos da seção eleitoral, qualquer que tenha sido nossa escolha, possamos olhar para a bandeira deste País e lembrar que existe algo maior do que a vitória de qualquer candidato.
O Brasil.
