BETO BELLINI

19/10/2026

Criticar o sistema enquanto se alimenta dele em segredo é o comportamento que mais sabota o verdadeiro desenvolvimento econômico. Vivemos em uma época em que o discurso público virou uma vitrine de virtudes. Nas redes sociais e nas rodas de conversa, sobram julgamentos severos, exigências de integridade e dedos apontados. No entanto, os bastidores da economia real revelam uma contradição amarga: muitos dos que publicamente condenam os privilégios e a corrupção são os mesmos que, na primeira oportunidade, operam na sombra de esquemas, conluios e vantagens pessoais.

Esse fenômeno do "falso moralista" não é apenas um desvio ético; ele é uma âncora que arrasta a produtividade e a saúde financeira de um país para baixo.

 

A Economia da Ilusão vs. A Economia da Produção

Para entender o impacto desse comportamento, precisamos dividir os agentes econômicos em dois grupos simples: os que constroem e os que extraem.

Os construtores: são os empreendedores, os trabalhadores assalariados, os investidores de risco e os profissionais que geram valor real. Eles criam produtos, prestam serviços, geram empregos e pagam impostos. A riqueza deles vem do esforço, da inovação e da troca justa no mercado.

Os extratores: são os que vivem de esquemas, armações e conexões de bastidores. Eles não criam um único posto de trabalho legítimo e não adicionam valor à sociedade. A sua especialidade é encontrar brechas, costurar acordos escusos e garantir "benesses" — sejam elas subsídios indevidos, facilidades burocráticas ou contratos inflacionados obtidos por puro favoritismo.

O falso moralista habita o topo da cadeia dos extratores. Ele usa a moralidade como um escudo para desviar a atenção de suas próprias práticas. Ao apontar o dedo para os erros alheios, ele tenta legitimar a própria posição enquanto desfruta de privilégios que a maioria da população trabalhadora jamais terá acesso.

Quando uma economia passa a premiar o "esquema" em detrimento do mérito e do trabalho duro, o mercado adoece. Esse custo invisível se manifesta de três formas principais: destruição da livre concorrência, pois, em um ambiente saudável, vence quem oferece o melhor produto pelo melhor preço. Quando os conluios de bastidores ditam as regras, empresas honestas e inovadoras quebram porque não têm o "QI" (Quem Indique) ou os contatos certos para participar do jogo viciado. Também o aumento do custo de vida, os esquemas e privilégios não são gratuitos. Alguém sempre paga a conta. Esse custo é repassado diretamente para o cidadão comum na forma de impostos mais altos, juros elevados e serviços públicos de pior qualidade. Por fim, a fuga de cérebros e capital. Quem realmente quer produzir e construir valor percebe que o esforço não compensa em um sistema dominado por aproveitadores. O resultado? Talentos e investimentos migram para mercados mais transparentes e justos.

 

Menos discurso, mais construção

A verdadeira economia não sobrevive de narrativas ou de poses moralistas; ela se sustenta na confiança e na geração de valor real. Enquanto tolerarmos que o sucesso seja fruto de "amarrações" e conchavos, continuaremos patinando no subdesenvolvimento. Criticar os privilégios do topo enquanto se usufrui de pequenas corrupções no dia a dia, ou aplaudir a ética apenas quando ela convém, é a maior hipocrisia econômica do nosso tempo. O Brasil só vai prosperar de verdade quando o ato de construir algo real for muito mais lucrativo, respeitado e valorizado do que a habilidade de viver de esquemas nos bastidores.

 

Gilberto César Ortolan Bellini, professor de Administração da Fatec Sertãozinho e Unip/RP, membro da Rabugentos Cia Teatral e Academia Sertanezina de Letras.