BETO BELLINI

13/10/2026

Vivemos uma época em que uma mentira repetida milhares de vezes parece ganhar status de verdade. Nas redes sociais, principalmente, tornou-se comum abrir o celular e encontrar mensagens dizendo que o Brasil está quebrado, que a economia entrou em colapso, que o desemprego explodiu, que ninguém mais consegue trabalhar e que o país estaria à beira de uma catástrofe.

Mas existe um problema nessa narrativa: os números oficiais contam uma história bem mais complexa — e, em vários aspectos, bastante diferente.

Não significa que o Brasil esteja vivendo um paraíso econômico. Não está. Temos juros elevados, desafios fiscais importantes, desigualdades que permanecem enormes e uma economia que precisa continuar crescendo. O próprio Tesouro Nacional mostra que as contas públicas ainda exigem atenção.

Mas reconhecer problemas é muito diferente de anunciar um país em ruínas.

Um dos indicadores mais importantes para a vida cotidiana é o emprego. E aqui temos uma informação que merece ser destacada: a taxa de desemprego ficou em 5,4% no segundo trimestre de 2026, um dos menores níveis da série histórica.

Também não estamos diante de uma economia parada. O PIB cresceu 0,5% no segundo trimestre em relação ao primeiro, enquanto o crescimento acumulado em quatro trimestres chegou a 1,9%.

Na inflação, outro indicador fundamental para o bolso do brasileiro, o IPCA acumulado em 12 meses, estava em 4,22% em agosto. Portanto, há motivos para atenção, mas isso está muito longe da ideia de uma economia completamente descontrolada.

E aqui chegamos ao ponto principal desta coluna: por que tantas pessoas têm a sensação de que tudo está pior do que os indicadores demonstram?

Parte da resposta está no modo como consumimos informação.

As redes sociais não são jornais. Elas não têm necessariamente o compromisso de apresentar contexto, comparação histórica ou equilíbrio. Um vídeo de 30 segundos mostrando uma prateleira vazia pode provocar muito mais reação do que uma tabela mostrando milhões de empregos criados. Uma fotografia de um supermercado com preços elevados pode ser verdadeira, mas não significa que toda a economia esteja em colapso.

O problema começa quando um fato isolado é apresentado como se fosse a fotografia completa do país.

E existe algo ainda mais perigoso: a mentira deliberada.

Notícias falsas, gráficos manipulados, vídeos antigos apresentados como atuais, números retirados de contexto e manchetes exageradas são utilizados para produzir indignação. O objetivo muitas vezes não é informar, mas provocar medo, raiva e desconfiança.

O próprio governo reconhece a dimensão do problema. O Ministério da Justiça anunciou recentemente novas regras para aumentar a transparência e combater publicidade enganosa e fraudulenta nas plataformas digitais.

Não é difícil entender por que a desinformação funciona. O cérebro humano reage mais rapidamente a uma notícia assustadora do que a uma estatística. “O Brasil está quebrado!” chama muito mais atenção do que “PIB cresce 0,5% no trimestre”.

Mas a economia não funciona por manchetes. Funciona por indicadores.

Por isso, antes de compartilhar aquele vídeo dizendo que o Brasil acabou, vale fazer três perguntas simples: de quando é esse dado? Qual é a fonte? O número está sendo comparado com o quê?

Isso significa fazer algo muito mais difícil: pensar.

Uma sociedade democrática precisa de pessoas capazes de cobrar governos, denunciar erros e apontar problemas. Mas também precisa reconhecer avanços quando eles acontecem.

Se o desemprego está baixo, devemos reconhecer. Se a inflação está sob controle relativo, devemos reconhecer. Se o PIB cresce, devemos reconhecer. E, da mesma maneira, se as contas públicas são um problema, devemos falar sobre elas.

Não precisamos escolher entre propaganda e catastrofismo.

Existe uma terceira opção: a realidade.

E talvez esse seja o maior desafio dos nossos tempos: em meio a algoritmos que premiam a indignação, aprender novamente a distinguir opinião de fato, crítica de mentira e problema real de narrativa fabricada.

O Brasil tem problemas. Muitos.  Mas dizer que um país com milhões de pessoas trabalhando, economia crescendo e desemprego em níveis historicamente baixos está simplesmente “em caos” não é análise econômica.

É narrativa. E, antes de compartilhá-la, talvez seja uma boa ideia conferir os números.

 

Gilberto César Ortolan Bellini é mestre em Administração, professor universitário e coordenador na Fatec Sertãozinho, professor da Unip RP, membro da Academia de Letras e da Rabugentos Cia Teatral