BETO BELLINI
Em ano eleitoral, o Brasil volta a ser palco de uma disputa intensa entre narrativas de esquerda e de direita. Mais do que propostas concretas, o que se vê é uma batalha de discursos cuidadosamente construídos para conquistar votos, muitas vezes à custa da clareza e da objetividade necessárias para enfrentar os desafios reais do país.
Essas narrativas, quando usadas de forma exagerada ou distorcida, acabam por confundir a população. O eleitor é bombardeado por slogans e frases de efeito que simplificam problemas complexos, transformando debates sérios em trincheiras ideológicas. O resultado é uma sociedade polarizada, em que o diálogo se perde e a busca por soluções práticas fica em segundo plano.
O governo Lula aposta na Reforma Tributária sobre o consumo e na manutenção do Arcabouço Fiscal, defendendo que isso trará justiça fiscal e estabilidade. A oposição, liderada por nomes como Flávio Bolsonaro, Romeu Zema e Ronaldo Caiado, defende austeridade fiscal, privatizações e autonomia do Banco Central como pilares para crescimento sustentável.
O desemprego caiu e a massa salarial cresceu, mas o custo de vida elevado e o endividamento das famílias impedem que a população sinta melhora significativa. A violência apresenta recuos estatísticos, mas a sensação de insegurança continua alta, influenciando o voto.
A esquerda enquadra choques externos, como a alta dos combustíveis após a Guerra do Irã, como fatores internacionais que exigem ação estatal. A extrema-direita nacionaliza a culpa, conectando inflação e endividamento diretamente ao governo federal, criando suspeita contra as instituições.
Investidores e empresários hesitam diante da instabilidade gerada por discursos radicais, o que afeta decisões de investimento.
Políticas públicas ficam paralisadas ou deslegitimadas, pois a disputa narrativa transforma cada medida em campo de batalha ideológico, em vez de apresentarem soluções viáveis para o país.
É preciso reconhecer que tanto a esquerda quanto a direita têm contribuições legítimas para o debate democrático. No entanto, quando o objetivo passa a ser apenas conquistar votos por meio da manipulação emocional, o país perde. O Brasil necessita de líderes capazes de apresentar propostas claras, sustentadas por dados e viáveis na prática, em vez de alimentar ilusões ou medos.
O desafio para o eleitor é não se deixar levar por discursos fáceis. Cabe à sociedade exigir mais responsabilidade dos candidatos e dos partidos, cobrando compromissos que realmente impactem o dia a dia da economia e da política. Só assim será possível transformar narrativas em soluções e retórica em resultados.
O Brasil corre o risco de transformar a eleição de 2026 em um concurso de ficção política, em que vence quem manipula melhor as emoções, não quem oferece soluções reais. A esquerda e a direita, cada uma à sua maneira, sequestram a economia cotidiana para alimentar narrativas que confundem mais do que esclarecem.
É hora de o eleitor rejeitar o conforto da polarização e exigir propostas concretas, sustentadas em dados e responsabilidade fiscal. Caso contrário, continuaremos presos a um ciclo vicioso em que a política se reduz a espetáculo e a economia a palco de manipulação. O Brasil não precisa de narradores: precisa de governantes.
Gilberto César Ortolan Bellini, mestre em Administração, professor da Fatec/STZ e Unip/RP. Membro da ASEL – Academia Sertanezina de Letras - e da Rabugentos Cia Teatral
