Não foi Carnaval, foi palanque

Não foi Carnaval, foi palanque
23/02/2026

O desfile da Acadêmicos de Niterói não foi um ato cultural inocente, nem uma homenagem despretensiosa. Foi um palanque montado na Marquês de Sapucaí. Foi propaganda política travestida de enredo. Militância sob o pretexto de arte.

 

Não há como relativizar.

Exaltar de forma aberta, elogiosa e unilateral um Presidente da República em exercício, no maior espetáculo popular do país, diante de milhões de espectadores e com ampla cobertura televisiva, não é neutralidade artística. É promoção política explícita. É construção de narrativa favorável. É, sim, propaganda  explícita,  ainda que disfarçada sob plumas e alegorias.

 

Há algo ainda mais grave.

A ala 22,  número associado ao ex-presidente Jair Bolsonaro, trouxe uma representação que ultrapassa o campo da crítica política e entra no terreno da desumanização simbólica. Cristãos, mulheres ricas retratadas como “peruas”, o agronegócio personificado na figura de um fazendeiro, a chamada “família tradicional brasileira”,  todos colocados dentro de uma lata de conserva. Para muitos, a imagem remetia não apenas a uma lata qualquer, mas a algo ainda mais ofensivo, uma lata de conserva aberta, a ser descartada. A fantasia era explícita, sem haver dúvidas: pai, mãe, filho e filha abraçados e cheio de amor. Um amor cristão, pois, vários componentes desta ala portavam uma Bíblia. A intenção foi ridicularizar e classificar esses grupos com retrógrados, com ideias antigas e limitados.

A mensagem foi clara. Não se tratava de debate de ideias, mas de enquadramento simbólico de segmentos inteiros da sociedade como algo a ser descartado, comprimido, armazenado, ridicularizado. Quando cristãos são colocados dentro de uma lata, quando famílias são retratadas como caricaturas aprisionadas em embalagem metálica, quando produtores rurais são transformados em estereótipos enlatados, o que se transmite não é crítica , é escárnio. Em um país majoritariamente cristão, essa representação soa como ataque direto à fé de milhões. O agronegócio, responsável por parcela significativa do PIB nacional, foi reduzido a caricatura. A família, independentemente de orientação política, virou objeto de deboche visual. Isso não é enfrentamento ideológico sofisticado. É simplificação agressiva. Pura agressão! Liberdade artística não é salvo-conduto para desrespeito religioso ou para a ridicularização deliberada de parcela da população. A Constituição assegura liberdade de crença e pluralidade de pensamento. Transformar grupos identificáveis em alegorias enlatadas transmite uma mensagem clara de exclusão  como se determinados brasileiros devessem ser comprimidos e descartados da propria sociedade. O desfile não apenas promoveu uma figura política específica. Ele construiu uma narrativa cuidadosamente seletiva. Se a proposta era contar a história de um líder, por que omitir capítulos fundamentais dessa trajetória? Onde estavam as alas representando o mensalão? O petrolão? O caso Pasadena? Os escândalos envolvendo o INSS? As crises éticas que marcaram os governos do Partido dos Trabalhadores? Onde estavam as sombras que acompanham algumas figuras públicas com décadas de atuação política?

 

Não apareceram.

Porque não interessava mostrar a complexidade, interessava exaltar. Interessava construir uma imagem heroica, limpa, quase mítica.  Isso é marketing político.

Carnaval sempre foi espaço de questionamentos ao poder,  não de reverências, mas críticas. A Sapucaí consagrou enredos que denunciaram desigualdades, criticaram governos e confrontaram injustiças. O que se viu agora foi o oposto: o poder aplaudido, celebrado e blindado de qualquer contestação, enquanto opositores simbólicos eram comprimidos dentro de uma lata. É impossível ignorar o contexto eleitoral  que o país vive. A promoção massiva da imagem de um agente político, em evento de alcance nacional, levanta questionamentos sérios sobre os limites entre manifestação cultural e propaganda antecipada. Não é preciso haver pedido explícito de voto para que haja promoção política. A construção pública de imagem é um instrumento eleitoral.

 

O que deveria ser festa virou instrumento.

O que deveria unir, dividiu. O que deveria provocar reflexão crítica, serviu à exaltação unilateral. A avenida não pertence a partidos. Não pertence a governos. Pertence ao povo,  inclusive àqueles que se viram simbolicamente jogados dentro de uma lata.

 

Propaganda não é cultura. É estratégia.

O samba pode ser resistência, denúncia e memórias. Quando decide servir ao poder sem questioná-lo e ridicularizar quem pensa diferente, deixa de ser voz do povo para ecoar o discurso do palácio. Quando o samba escolhe bajular o poder e ridicularizar quem pensa diferente, ao som da bateria,  é ousadia criativa de mau gosto sustentado por verba pública.

 

Paulo Roberto Garcia