Marx não era marxista
“Marx não era marxista.” A frase não é apenas provocativa, é uma acusação histórica. Ela expõe como um pensador crítico foi sequestrado por uma ideologia que transformou análise em dogma e teoria em instrumento de poder. Se Marx pudesse observar o que foi feito em seu nome, provavelmente reconheceria pouco do próprio trabalho.
Karl Marx foi um crítico severo do capitalismo, mas nunca foi um defensor do Estado onipotente, da burocracia total ou da supressão da liberdade individual. Não escreveu manuais de governo, nem defendeu partidos únicos, censura ou economias centralizadas. Em O Capital, afirmou que seu objetivo era “revelar a lei do movimento da sociedade moderna”, não projetar um futuro administrado por tecnocratas ou políticos.
Ainda assim, o marxismo fez exatamente isso, transformou crítica em engenharia social. Onde Marx analisava, seus herdeiros decretaram. Onde ele descrevia contradições, eles prometeram redenção. O resultado não foi emancipação, mas concentração de poder, quase sempre nas mãos do Estado.
O próprio Marx percebeu o risco da idolatria. Diante de seguidores que tratavam suas ideias como verdade final, ironizou: “Tudo o que sei é que não sou marxista.” A frase soa como um aviso ignorado. Marx rejeitava a fossilização do pensamento, o marxismo fez dela seu método.
Ao contrário do que pregam seus intérpretes, Marx não acreditava em uma história guiada por leis infalíveis que conduziriam inevitavelmente ao socialismo. Em “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte”, escreveu: “Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem.” Não há aqui promessa de paraíso coletivo, apenas limites, conflito e responsabilidade humana.
Foi depois de sua morte que Marx virou ideologia de Estado. Seu pensamento foi simplificado, empacotado e usado para justificar o crescimento ilimitado do poder político. Em nome da igualdade, destruiu-se a liberdade. Em nome do trabalhador, fortaleceu-se a burocracia. Em nome da ciência, suprimiu-se o direito a não concordar.
A ironia é cruel. Marx, que denunciava a alienação, tornou-se ícone. Marx, que criticava estruturas opressivas, virou pretexto para regimes que criminalizavam a iniciativa individual. Marx, que desconfiava de verdades absolutas, foi convertido em fundamento de sistemas que não toleravam contestação.
Para o liberal clássico, a lição é clara. O problema central do marxismo não está apenas em seus diagnósticos econômicos, mas em sua consequência política inevitável: a crença de que uma elite esclarecida pode reorganizar a sociedade de cima para baixo.
Dizer que Marx não era marxista não é defendê-lo. É reconhecer que ideias, quando transformadas em ideologia estatal, tornam-se perigosas, mesmo quando nascem como crítica. Marx pode não ter sido marxista. Mas o marxismo é exatamente aquilo que os liberais sempre temeram.
Paulo Roberto Garcia
