Lula correu, pressionou e perdeu a foto

19/01/2026

O Acordo Mercosul–União Europeia saiu. Depois de décadas de negociação, reuniões improdutivas, promessas vazias e comunicados otimistas, o tratado finalmente foi aprovado, porém, não saiu como o atual presidente do Brasil queria. A foto histórica está feita, mas Lula não está nela.

Durante meses, o governo brasileiro vendeu a narrativa da urgência. Era preciso assinar “agora”, dizia-se, como se o acordo estivesse subitamente prestes a evaporar. Na prática, a pressa tinha menos a ver com tarifas e mais com holofotes. Ele, Lula, queria fechar o acordo enquanto presidia o Mercosul. Queria o registro, o aperto de mãos, o enquadramento internacional. Queria a imagem.

Não conseguiu.

A diplomacia europeia, pouco impressionada com o calendário político brasileiro, seguiu seu próprio ritmo. França, Itália e outros países mantiveram suas resistências, ignorando a ansiedade tropical. O resultado foi quase pedagógico: o acordo avançou quando teve de avançar, e não quando ele queria.

Quando saiu, o cenário havia mudado. Lula já não era presidente do Mercosul. Quem apareceu no centro do palco foi o Paraguai. Um detalhe institucional, dirão alguns; um detalhe cruel, dirão outros. Porque, em política externa, detalhes rendem manchetes, discursos e capital simbólico.

O presidente brasileiro tentou transformar um acordo coletivo em troféu pessoal e descobriu que tratados multilaterais não funcionam como campanhas eleitorais. Não se acelera um processo desse porte com discursos inflamados nem com apelos públicos. A diplomacia não obedece vaidades.

Nada disso muda o fato de que o Brasil se beneficia economicamente do acordo. Exportadores ganham, mercados se ampliam, investimentos podem chegar. O país não perde no conteúdo. Perdeu na encenação.

A assinatura formal do acordo está marcada para o dia 17 de janeiro, no Paraguai. Será ali, fora do Brasil e sem Lula como protagonista, que o tratado ganhará sua forma definitiva. A imagem histórica que o governo brasileiro tentou capturar durante sua presidência do Mercosul será registrada em outro palco, com outros enquadramentos.

No fim, resta a ironia: depois de tanto esforço para sair na foto, Lula acabou provando que, na diplomacia, quem força o flash costuma piscar na hora da foto.

 

Paulo Roberto Garcia