Instituições e crescimento: o impasse do Brasil

Instituições e crescimento: o impasse do Brasil
27/04/2026

Leitura de “Por que as Nações Fracassam” ajuda a entender por que o país avança, mas não sustenta crescimento

 

O Brasil não é um país pobre de recursos, nem de talento. Ainda assim, cresce pouco e de forma instável. Avança em alguns momentos, recua em outros, e frequentemente dá a sensação de estar sempre perto de dar certo, mas nunca completamente.

Essa contradição está no centro do livro Por que as Nações Fracassam, de Daron Acemoglu e James A. Robinson. A tese dos autores é simples e poderosa: países prosperam quando suas instituições permitem que a maioria das pessoas participe da economia de forma produtiva. Fracassam quando o sistema favorece apenas alguns.

O ponto não é apenas ter leis ou regras, mas como elas funcionam na prática.

Em países que dão certo, o jogo é mais claro: abrir uma empresa é viável, investir tem previsibilidade, e o sucesso depende mais de desempenho do que de acesso. Já em países que não decolam, as regras até existem, mas são complexas, instáveis ou desiguais, o que cria vantagens para quem sabe navegar o sistema.

O Brasil está exatamente nesse meio.

O país construiu instituições importantes nas últimas décadas. Tem democracia consolidada, economia relevante e capacidade empresarial evidente. Mas, ao mesmo tempo, mantém um ambiente onde operar ainda é difícil, caro e incerto.

Isso aparece no cotidiano: burocracia elevada, regras que mudam com frequência, decisões imprevisíveis e um sistema que exige conhecimento específico para funcionar. Não por acaso, muitos empresários dizem que, no Brasil, não basta ser eficiente, é preciso saber “jogar o jogo”.

E esse é o problema central.

Quando o sucesso depende mais da capacidade de lidar com o sistema do que de produzir melhor, o país começa a limitar o próprio crescimento. Em vez de premiar quem é mais produtivo ou inovador, acaba premiando quem tem mais acesso, mais informação ou mais proximidade com os centros de decisão.

Ao longo do tempo, isso cria uma economia menos dinâmica e menos competitiva.

O livro também destaca que mudanças reais acontecem em momentos de rupture, crises, transições políticas ou grandes reformas. O Brasil já teve vários desses momentos: a redemocratização, a Constituição de 1988, a estabilização com o Plano Real.

Mas, em geral, fez mudanças importantes sem alterar profundamente a forma como o poder e o acesso são distribuídos. Modernizou o sistema, mas preservou muitas de suas distorções.

O resultado é um país que melhora, mas não muda de patamar.

Outro ponto relevante é que sistemas assim tendem a se perpetuar. Não por acaso, mas porque há grupos que se beneficiam deles. Mudar regras significa redistribuir poder e isso quase sempre encontra resistência.

Por isso, reformas no Brasil avançam, mas muitas vezes de forma incompleta.

Ainda assim, o potencial do país é inegável. O Brasil tem escala, recursos, uma população empreendedora e um mercado relevante. Em um ambiente mais simples, previsível e aberto, poderia crescer de forma muito mais consistente.

O problema não é falta de diagnóstico. O Brasil sabe o que precisa melhorar.

O desafio é transformar esse conhecimento em mudanças reais no funcionamento do sistema.

Se continuar sendo um país onde poucos conseguem prosperar porque têm acesso ao “manual invisível” de como as coisas funcionam, o crescimento seguirá limitado.

O Brasil não precisa reinventar seu modelo.

Precisa fazer algo mais básico e mais difícil: tornar-se um país onde o sucesso não depende de acesso ao sistema, mas da capacidade de gerar valor.

Sem isso, continuará avançando… Mas sempre andando de lado.