AMÉRICO PERIN
Quando um país começa a ruir, os sinais nem sempre vêm acompanhados de sirenes. Às vezes, eles aparecem na má qualidade de ensino oferecida. No silêncio das salas de aula cheias de estudantes, mas vazias de conteúdo pedagógico de boa qualidade, nos livros cujo conteúdo de má qualidade dirigem a atenção dos alunos para assuntos que só interessam determinada casta dominante e no olhar cansado de professores que já perderam a fé. A decadência de uma nação rica não se faz apenas nos gabinetes de políticos incompetentes ou mal-intencionados — ela se revela no abandono da educação. É a sabotagem do futuro.
Aprender está se tornando privilégio. Escolas públicas abandonadas tanto nas condições físicas como na entrega dos alunos a professores mal preparados contrastam com instituições privadas de luxo. O acesso ao conhecimento passou a depender do interesse político de governantes que - eles próprios nunca foram afetos aos estudos- estão criando uma geração de excluídos. A meritocracia foi deixada de lado e a quantidade de “formados” despejada no mercado de trabalho não se ajusta às necessidades do mesmo. Faculdades onde o aluno vai tomar informações e se, por acaso, esquecer a carteira de identidade em cima do balcão, quando vai buscá-la, fica sabendo que já está matriculado, existem aos montes. Vejam os noticiários que informam a preocupação da classe médica com o crescimento absurdo na quantidade de escolas de medicina e que estão com a qualidade sendo avaliadas como ruins por parte dos órgãos fiscalizadores.
“Não é só o cientista que vai embora. É o estudante que desiste. É o professor que abandona o magistério. É o pesquisador que troca o laboratório nacional por um emprego no exterior. Um país que não educa exporta seus cérebros — e importa atraso.”
Com isso tudo causando a decadência educacional, alimenta-se o desemprego, perpetuam-se as desigualdades, travam-se as inovações e fragiliza-se a democracia. E o pior: as consequências são sentidas por décadas, mesmo após reformas.
Sim, mesmo após reformas, se é que serão feitas, pois a pergunta que se faz é: ainda é possível reverter? Talvez. Mas isso exige mais que promessas eleitorais ou slogans bonitos. É preciso prioridade, investimento consistente e respeito pela educação como base de qualquer reconstrução. Nossos melhores cérebros estão saindo do país, nossos alunos estão sendo malformados ou abandonando as escolas e o mercado mundial não aceita somente dirigentes glamourosos que mais parecem “celebridades” deleitando-se com exposições, diga-se de passagem, desastrosas, em turnês de caráter piores ainda a certos países estrangeiros...
Bem, encerrando por hoje, lembrei-me de um episódio - que alguns julgam verdadeiro. Julguem vocês, caros leitores:
“Certo político de uma nação em decadência política, social, de costumes e principalmente de educação, para testar seu prestígio junto ao povo, fez uma viagem de carro pelo interior do Estado de que era originário. Sentado confortavelmente no banco traseiro do seu carro de luxo, revia as paisagens pobres e as personagens maltrapilhas, imagens que recordavam seu passado, pois ali nascera e ali vivera durante algum tempo. Em certo momento, saindo de um casebre na beira da estrada, uma mulher correndo atrás de um garotinho sujo de terra e com trajes maltrapilhos - a exemplo da mãe -, que gritava: “Luizinaçú! Luizináçu! Muléque da peste, vorta aqui!!!!!”
O político mandou seu motorista parar o carro e perguntou à mãe do moleque se o nome dele teria sido dado em homenagem a algum grande político daquele país. E a mãe do garoto explicou:
- Não sinhô, u nome dele é Jaí, mais deu di bebe, deu di rouba e...”