AMÉRICO PERIN

23/03/2026

“Miserável país aquele que não tem heróis. Miserável país aquele que precisa de heróis.”  Bertolt Brecht 

 

Pensando sobre esse, tema resolvi hoje falar um pouco de algo que me preocupa sobremaneira, porque, entre nossos heróis, encontramos os nossos ídolos. E aí começa o perigo a que estão expostos nossos jovens hoje em dia. E até muitos adultos incautos ou malformados, ou, ainda, informados.

Saí por aí perguntando principalmente aos mais novos: Quem são nossos ídolos? O que é ser ídolo no Brasil hoje em dia?

Até em tom de ironia alguém chegou a dizer que se tornar ídolo em solo brasileiro, hoje, haveria que ser desde participantes do Big Brother Brasil a grandes nomes do cinema e televisão nacionais, porque hoje qualquer pessoa sem grandes referências ou exemplo para a nossa sociedade pode ou está se tornando ídolo. Aliás, nos últimos tempos, o cinema e as novelas têm me chamado a atenção com a quantidade de ídolos pré-moldados que são “fabricados” no cenário nacional.

Por sinal, de uns tempos para cá, outra pergunta não consegue sair da minha mente: por que não são feitos filmes e novelas de pessoas realmente importantes que tenham algo de bom para conceder, verdadeiros exemplos para essa juventude, já tão malformada pela grande maioria das nossas instituições de ensino? Será que ser correto não dá audiência, não rende bilheteria?

Quem assistiu ao filme Cazuza? Por sinal, concordo que suas letras são muito tocantes, mas reverenciá-lo como um ídolo foi, no mínimo, inadmissível. Aliás, como podemos cultivar um ídolo como Cazuza? Neste filme, parece que é extremamente comum usar drogas, participar de orgias sexuais, beber até cair como se essas coisas fossem certas. Recordo-me que Cazuza foi uma pessoa que

viveu à margem da sociedade, pelo menos de uma sociedade que tentamos construir (ao menos eu) com conceitos de certo e errado. No filme, vi um rapaz mimado, filhinho de papai que nunca precisou trabalhar para conseguir alguma coisa, que já tinha tudo nas mãos. A mãe vivia para satisfazer as suas vontades e loucuras. O pai preferiu se afastar das suas responsabilidades e deixou a vida correr solta. Na verdade, Cazuza era um traficante e, como sua própria mãe, Lucinha Araújo, revela no livro, admitiu que ele chegou a trazer drogas da Inglaterra! Um verdadeiro criminoso!

Não é de hoje que venho comentando as produções cinematográficas brasileiras. E as novelas sobre a violência urbana e a falta de valores éticos e morais? Não se assuste, caro leitor, se em breve chegarem aos nossos cinemas filmes e em nossas TVs novelas exaltando de forma explícita ou apenas sugerindo sobre o heroísmo de Fernandinho Beira-Mar, sobre o bilionário traficante colombiano Juan Carlos Ramírez Abadia, ou “Chupeta”, preso no Brasil, entre outros.

Os meus questionamentos sobre essa idolatria e exibicionismo desnecessários é que nossa sociedade perdeu os valores verdadeiros. Nossa sociedade fabrica falsos ídolos que nos deixam carentes e frustrados o tempo todo. Nossos ídolos são os acessórios e roupas de grife, o celular de “miu reau”, os carros importados, as joias caras, o dinheiro e o poder! Mas onde estão os valores como a honestidade, a perseverança, a bondade, a tolerância, a caridade e, ainda mais, onde estão aquelas virtudes que norteavam as vidas de nossos pais e avós, aquelas que eles ensinaram na minha infância?

Por que o cinema enaltece as pessoas que se dão bem na vida manipulando a dos outros, roubando e consumindo drogas? Por que não existem filmes que mostrem as pessoas de bem? Será que é porque essas pessoas de bem não “vendem” marcas famosas e não podem se tornar ídolos nem com o melhor marketing? Ou será que os autores das nossas novelas e filmes... Bem, deixa para lá, qualquer coisa a mais que eu escreva aqui pode resultar num processo e eu, claro, ainda haveria de indenizar alguém...

O povo é facilmente manipulável porque está carente de exemplos melhores. Estamos carentes mesmo dentro de casa, onde muitos pais não conseguem vencer o apelo das TVs e da Internet, que estimulam o consumo desenfreado de seus filhos e que geram mais e mais frustração e raiva, num círculo vicioso que deságua em violência e revolta. O Brasil precisa urgentemente de gente consciente, que respeite os verdadeiros valores morais e éticos e que crie as possibilidades para que surjam outros exemplos para serem admirados nos cinemas, nas novelas, na grande mídia, enfim...

Ainda acredito que a vida está cheia de bons exemplos e basta procurá-los. Não são muitos, mas eles existem, perto e longe de nós: na vida privada, no nosso círculo de amigos, entre nossos familiares, basta procurá-los.

P.S. (E o tão badalado filme “O Agente Secreto” não ganhou nada na cerimônia do Oscar).