Homocisteína elevada: o que pode sinalizar, além do risco cardiovascular?

18/08/2025

“A homocisteína deu alta no exame.” E agora? É só risco de infarto?

Spoiler! Não. É muito mais grave, e silencioso, do que muitos imaginam.

A homocisteína é um aminoácido sulfurado, intermediário do metabolismo da metionina. Em condições ideais, ela é metabolizada com a ajuda de nutrientes bioativos como metilcobalamina (B12 ativa), metilfolato (5-MTHF) e piridoxal-5-fosfato (B6 ativa).

São dois os caminhos fisiológicos que ela pode seguir: Remetilação → transformação da homocisteína em metionina • Essencial para equilíbrio hormonal, neuroquímico e genético, e tem como nutriente-chave metilfolato (5-MTHF) e metilcobalamina.

Transsulfuração → conversão da homocisteína em cisteína • Fundamental para produção de glutationa, detox hepático e defesa antioxidante, e tem como nutriente-chave vitamina B6 ativa.

Se essas vias não funcionam bem, o acúmulo de homocisteína se torna um marcador de disfunção sistêmica.

Portanto, o que significa homocisteína alta? Uma homocisteína elevada no sangue indica falhas no metabolismo do metil, que impactam diretamente:

A metilação do DNA (epigenética);

A síntese de neurotransmissores;

 A destoxicação hepática (fase II);

A conversão de hormônios tireoidianos;

A modulação inflamatória e imunológica.

É uma elevação com causas comumente ignoradas, como:

Deficiência funcional de B12, B6 e folato ativo;

Uso crônico de anticoncepcionais, metformina e inibidores de bomba;

Dietas ricas em metionina sem suporte nutricional adequado;

Hipocloridria e disbiose intestinal;

Polimorfismos genéticos;

Estresse oxidativo elevado.

E o impacto vai além do coração… A homocisteína alta está associada a disfunções cognitivas e neurodegeneração, à depressão, ansiedade, irritabilidade, TDAH… Assim como a abortos de repetição e infertilidade; a conversão inadequada de T4 em T3; ao aumento de autoanticorpos e inflamação silenciosa; além de alterações epigenéticas por hipometilação do DNA.

Embora os valores laboratoriais de referência indiquem até 15 μmol/L como normal, há discussões clínicas entre médicos com ampla experiência preferindo níveis mais baixos em determinados contextos. Mas evidente que esse ajuste depende da individualidade de cada paciente e deve ser avaliado pelo médico.

O médico deve sempre investigar:

Status de B12 ativa, metilfolato e B6;

Saúde intestinal e uso de medicações;

Polimorfismos como MTHFR, MTR e CBS;

Níveis de glutationa e outros marcadores de estresse oxidativo;

Quadro clínico e sinais funcionais associados.

Um simples exame, mas uma poderosa ferramenta de prevenção. Homocisteína alta é um alerta silencioso de desequilíbrio profundo. Ela não diz respeito apenas ao risco cardiovascular, mas ao bom funcionamento de todo o organismo. Na prática clínica, ignorá-la é perder a chance de intervir antes que os sintomas se agravem.