BETO BELLINI

21/09/2026

Por muitos brasileiros, os termos “esquerda” e “direita” são utilizados diariamente para definir partidos, governos e candidatos. No entanto, poucos conhecem a origem histórica dessas expressões e menos ainda percebem o quanto elas foram modificadas, ampliadas e, em muitos casos, desvirtuadas ao longo do tempo.

A origem dos termos remonta à Revolução Francesa, em 1789. Durante os debates da Assembleia Nacional Constituinte, os deputados favoráveis à preservação de maiores poderes para o rei e das tradições do Antigo Regime sentavam-se à direita do presidente da Assembleia. Já os defensores de mudanças mais profundas, da ampliação dos direitos políticos e da limitação do poder monárquico ocupavam os assentos à esquerda. Dessa disposição física, nasceu uma das classificações políticas mais duradouras da história.

Inicialmente, portanto, “direita” e “esquerda” não representavam partidos políticos como conhecemos hoje. Eram posições diante de questões fundamentais: conservação ou mudança, tradição ou reforma, hierarquia ou maior igualdade jurídica. Ao longo do século XIX, esses conceitos ganharam um caráter ideológico mais definido.

Contudo, a evolução histórica demonstrou que a realidade política é muito mais complexa do que uma simples linha dividida entre dois lados. Diversos estudiosos apontam que partidos e líderes frequentemente assumem posições de esquerda em alguns temas e de direita em outros. Além disso, surgiram correntes de centro, movimentos nacionalistas, liberais, conservadores, social-democratas e inúmeras combinações que desafiam classificações rígidas.

No Brasil, essa complexidade foi frequentemente substituída por simplificações excessivas. Durante décadas, muitos partidos adotaram discursos de esquerda enquanto implementavam políticas econômicas consideradas conservadoras. Outros se apresentaram como representantes da direita, mas defenderam forte intervenção estatal em setores estratégicos. O resultado foi uma crescente confusão entre ideologia, pragmatismo e marketing eleitoral.

Mais recentemente, os conceitos passaram a ser utilizados como rótulos emocionais, muitas vezes esvaziados de seu conteúdo histórico. Para alguns, esquerda tornou-se sinônimo de defesa de minorias, enquanto para outros significa apenas aumento do Estado. Da mesma forma, direita passou a ser associada por uns à liberdade econômica e por outros a valores morais tradicionais. Em muitos debates, os termos deixaram de servir como instrumentos de análise política e passaram a funcionar apenas como etiquetas para identificar aliados e adversários.

Esse fenômeno foi intensificado pelas redes sociais, que favorecem mensagens curtas, polarização e simplificações. Em vez da discussão sobre propostas concretas para educação, saúde, segurança e desenvolvimento econômico, grande parte do debate público passou a girar em torno de identidades ideológicas frequentemente caricaturadas.

Talvez o maior desvirtuamento dos conceitos de esquerda e direita no Brasil seja justamente a perda de seu significado original. O que nasceu na França como uma forma de identificar diferentes visões sobre organização do poder e da sociedade transformou-se, muitas vezes, em um instrumento de divisão social. Em vez de promover reflexão, passou a estimular antagonismos.

Compreender a origem histórica desses termos não significa escolher um lado. Significa reconhecer que a política é mais rica e complexa do que slogans eleitorais. A democracia se fortalece quando os cidadãos avaliam ideias, projetos e resultados concretos, e não apenas os rótulos que acompanham candidatos e jamais devem substituir a análise crítica. Afinal, governos não são definidos pelo lugar que ocupam em um espectro ideológico, mas pela capacidade de responder aos desafios reais da sociedade.

 

Gilberto César Ortolan Bellini, mestre em Administração, professor da Fatec Sertãozinho e Unip RP, membro da ASEL - Academia Sertanezina de Letras - e da Rabugentos Cia Teatral.