Especialista alerta que a invasão terrestre ao Irã pode desencadear a pior crise de energia da história
A semana do setor de óleo e gás começou com a tensão novamente em alta e o mundo pode estar caminhando para a pior crise de energia de todos os tempos. Para o consultor da RX2, Felipe Rizzo, a depender dos desdobramentos nos próximos dias e semanas, o mundo pode entrar em um cenário onde a oferta de petróleo e derivados será menor do que a demanda mundial. Seria algo inédito na história da indústria de energia. Mais do que isso: os danos ao setor seriam equivalentes aos que foram sentidos no auge do lockdown imposto pela pandemia de Covid-19. Em entrevista ao portal “Metrópoles”, o especialista avaliou que a estratégia americana é enfrentar o Irã e forçar uma retaliação que pode destruir a infraestrutura de petróleo de países do Golfo Pérsico, trazendo consequências avassaladoras e duradouras para todo o mercado.
Segundo Rizzo, após 20 dias de uma eventual tentativa americana de desobstrução de Ormuz por meio de uma invasão terrestre, cerca de 80% dos países poderiam entrar em estado de emergência. “Não existe energia suficiente para resolver esse problema. Isso não é apenas mais uma guerra. O cenário atual não se compara à invasão da Ucrânia ou à crise de 2022. Seria o mesmo cenário da pandemia de Covid-19, mas com todo mundo trabalhando”, alertou o consultor.
O consultor considera que a atual crise no Oriente Médio é “gravíssima” e não se trata apenas de um movimento político de Donald Trump, mas sim uma opção estratégica americana para que o Irã ataque a infraestrutura de petróleo da OPEP. Dessa forma, a capacidade de fornecimento de diesel e gás para a Europa seria afetada, elevando drasticamente os preços europeus. O consultor lembra também que a Agência Internacional de Energia prevê que esta pode ser uma crise superior às de 1973 e 1979.
“É algo sem precedentes. A humanidade nunca teve menos produção de petróleo do que demanda. Se os 20 milhões de barris produzidos no Golfo saírem do mercado, enfrentaremos uma situação inédita”, apontou. “Se a guerra escalar para a destruição física da infraestrutura da OPEP, o preço do barril subirá por um longo tempo. Não será apenas um problema de mercado, mas um problema real de oferta. Pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, caso o Irã destrua essa infraestrutura, teremos menos oferta de petróleo e derivados do que a demanda mundial”, acrescentou.
Rizzo indica que os Estados Unidos, por sua vez, são capazes de produzir GNL e diesel para suprir a falta de 40% que a União Europeia enfrentará. “Não é um ‘arroubo’ do presidente Trump; é uma opção. O objetivo parece ser incorporar o mercado europeu ao mercado americano”, analisou. O consultor considera que os Estados Unidos podem assumir o lugar da OPEP por dois a quatro anos, ditando preços e se beneficiando do aumento do custo de energia. Isso reduziria a competitividade de toda a indústria europeia pelo aumento da formação de preços do petróleo.
A guerra já completou um mês de duração e os números não mentem. O preço do barril de petróleo disparou desde o início do confronto. No dia anterior ao início do conflito, a commodity era cotada a US$ 70,75. Agora, no final de março, o barril acumula valorização de 52%, sendo comercializado a US$ 107,98 na segunda-feira.
“Tudo gira em torno sobre como reindustrializar os Estados Unidos. Mas quem vai financiar isso? A estratégia parece ser usar as reservas europeias para fornecer o dinheiro necessário para essa reindustrialização americana. O impacto global disso é: gasolina e gás sobem drasticamente e o diesel pode sofrer racionamento”, apontou.
Efeitos no Brasil
Rizzo acredita que o impacto no Brasil será diferente do resto do mundo. Segundo ele, o país continuará com disponibilidade da maioria dos combustíveis — como gás natural e gasolina —, mas com um pequeno impacto no diesel, pois não temos reservas suficientes para oferecer a toda a população.
“O Brasil está parcialmente protegido, mas nosso maior problema é o diesel e a crise de fertilizantes. Se a Petrobras não tivesse retomado a produção de ureia nos últimos dois anos, estaríamos importando 100% do produto; hoje produzimos 25% da nossa demanda. A questão fundamental para nós é como trazer ureia e fosfato para o plantio de outubro”, declarou.
O consultor indica que o governo pode optar por subsidiar o diesel e a gasolina utilizando os recursos obtidos com recém-criado o imposto de exportação de petróleo. Além disso, segundo Rizzo, o Brasil precisa focar em estocar diesel e preparar o plantio de outubro, porque a crise é de grandes dimensões.
“Nós teremos combustíveis, mas os preços poderão ser altos. Só não serão altos se o governo definir que é preciso subsidiar a operação. Isso não é uma manobra intervencionista do governo. O que está em jogo é um processo de economia de guerra. Abril será um mês decisivo. Se a operação por terra no Irã ocorrer, entraremos em um cenário inédito na história”, disse.
Por fim, diante de um cenário conturbado, Rizzo considera que não faz sentido discutir déficit público ou manter o arcabouço fiscal. “É uma economia de guerra. É o pior cenário desde a Segunda Guerra Mundial. O governo precisa liberar recursos para investimento em defesa e infraestrutura, bem como garantir projetos de autossuficiência para proteger o agronegócio e o fornecimento de fertilizantes. A prioridade global deixou de ser a emergência climática e passou a ser a segurança energética”, concluiu.
Com informações https://petronoticias.com.br/
