E35: o etanol como saída econômica, social e ambiental

E35: o etanol como saída econômica, social e ambiental
09/02/2026

A possível elevação do percentual de etanol anidro misturado à gasolina para 35%, o chamado E35, vai muito além de um ajuste técnico na especificação do combustível. Trata-se de uma decisão estratégica com potencial para reposicionar o Brasil no debate energético global, ao mesmo tempo em que oferece uma resposta concreta à crise econômica enfrentada pelo setor sucroenergético e contribui para os compromissos ambientais do país.

Embora o marco legal já permita a elevação da mistura, o avanço depende da conclusão de testes técnicos de compatibilidade com a frota em circulação. Superada essa etapa, os benefícios do E35 tendem a superar amplamente os custos de adaptação, tornando a medida não apenas viável, mas desejável.

Do ponto de vista econômico, o impacto é direto e mensurável. O consumo anual de gasolina no Brasil gira em torno de 45 a 50 bilhões de litros. A elevação da mistura dos atuais 30% para 35% implicaria uma demanda adicional estimada entre 2 e 2,5 bilhões de litros de etanol anidro por ano. Esse volume cria previsibilidade, estimula a modernização industrial e fortalece uma cadeia produtiva intensiva em empregos e distribuída pelo interior do país.

Mais do que impulsionar o mercado de combustíveis renováveis, o E35 atua como um importante mecanismo de equilíbrio para o mercado global de açúcar. Estimativas de entidades do setor indicam que o aumento da mistura deslocaria cerca de 3 milhões de toneladas de açúcar do mercado internacional, redirecionando a matéria-prima para a produção de etanol. Esse volume é suficiente para praticamente zerar o atual superávit global do produto.

O efeito esperado é uma recomposição dos preços internacionais do açúcar, que hoje se encontram nos menores patamares da última década. Em muitos mercados, os preços estão abaixo do custo médio de produção,  comprometendo investimentos, empregos e a sustentabilidade financeira do setor. Ao ampliar a demanda por etanol, o E35 contribui para reduzir essa distorção estrutural, oferecendo maior estabilidade e capacidade de planejamento às empresas.

Do ponto de vista energético, o ganho também é estratégico. Cada ponto percentual adicional de etanol na gasolina reduz a necessidade de gasolina A. Em um cenário internacional marcado por volatilidade do petróleo, tensões geopolíticas e incertezas cambiais, substituir combustível fóssil  por produção doméstica renovável fortalece a segurança energética nacional e reduz a exposição do país a choques externos.

Os impactos sociais acompanham essa dinâmica. A cadeia sucroenergética gera milhões de empregos diretos e indiretos, especialmente fora dos grandes centros urbanos. O fortalecimento do setor contribui para o desenvolvimento regional, a geração de renda no interior e a redução de desigualdades territoriais, ao mesmo tempo em que ocorre sob padrões ambientais e trabalhistas mais rigorosos do que aqueles associados a combustíveis fósseis.

No campo ambiental, os benefícios são igualmente relevantes. O etanol brasileiro apresenta uma das menores intensidades de carbono do mundo quando analisado ao longo de todo o seu ciclo de vida. A ampliação da mistura para 35% pode evitar dezenas de milhões de toneladas de emissões de CO₂ nos próximos anos, contribuindo de forma direta para o cumprimento das metas climáticas assumidas pelo Brasil no âmbito do Acordo de Paris.

Diferentemente de soluções ainda experimentais, o etanol é uma tecnologia madura, amplamente testada e integrada à matriz de transportes nacional há décadas. O E35 não representa uma ruptura, mas a consolidação de uma política pública que combina eficiência econômica, ganhos ambientais e inclusão social.

O debate em torno do aumento da mistura não deve se restringir à viabilidade técnica, embora ela seja indispensável. Uma vez comprovada, a decisão passa a ser essencialmente estratégica. Em um momento em que o mundo busca acelerar a transição energética sem sacrificar crescimento e desenvolvimento, o Brasil já dispõe de uma solução pronta, competitiva e alinhada às suas vantagens comparativas.

A adoção do E35 é, portanto, mais do que possível. É uma oportunidade de alinhar política energética, política industrial e política ambiental em uma mesma direção.

Paulo Roberto Garcia