Diplomacia a crédito e o custo da imprudência
O Brasil, por anos, decidiu financiar obras no exterior como instrumento de política externa e de estímulo à internacionalização de suas empresas. A estratégia, liderada pelo BNDES, foi apresentada como virtuosa: gerar empregos, abrir mercados e ampliar a presença brasileira no mundo.
Mas, por trás dessa narrative, construiu-se um modelo no qual o critério técnico cedeu espaço à conveniência política e o risco, mal precificado, acabou sendo socializado.
Os principais casos de inadimplência não surpreendem. Venezuela e Cuba, na época dos financiamentos, já exibiam sinais claros de fragilidade: instabilidade institucional, dependência de commodities e baixa previsibilidade econômica. Ainda assim, receberam crédito em volumes bilionários.
Hoje, a Venezuela acumula aproximadamente US$ 1,2 bilhão em dívidas inadimplentes com o Brasil, enquanto Cuba deve cerca de US$ 676 milhões. Somados, os valores se aproximam de US$ 1,9 bilhão.
Não se tratou de erro. Tratou-se de escolha.
O modelo operacional concentrava o desembolso em grandes empreiteiras brasileiras, responsáveis pelas obras financiadas. Empresas como Odebrecht, Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa e OAS foram protagonistas desse ciclo.
Posteriormente, essas mesmas companhias figuraram no centro da Operação Lava Jato, que revelou um ambiente marcado por cartelização, corrupção e promiscuidade entre interesses públicos e privados.
Não é possível ignorar a convergência entre crédito direcionado, contratos internacionais e governança comprometida.
Em qualquer ambiente minimamente rigoroso de crédito, decisões são pautadas por capacidade de pagamento, garantias executáveis e estabilidade institucional. Aqui, esses pilares foram relativizados.
O resultado foi a formação de um portfólio concentrado em riscos elevados, com baixa proteção e forte exposição a choques políticos e econômicos.
O aspecto mais desconfortável dessa história talvez não esteja apenas no calote bilionário.
Está no fato de que a sociedade brasileira jamais foi consultada se desejava financiar regimes estrangeiros de elevado risco, muitos deles sem estabilidade econômica, transparência institucional ou histórico confiável de pagamento.
Ainda assim, bilhões de dólares foram comprometidos em operações estruturadas com recursos públicos e garantias soberanas brasileiras.
Quando o devedor não paga, a dívida não desaparece. Ela muda de lugar.
Os valores são cobertos pelo Tesouro Nacional, convertendo decisões passadas em custo presente. O risco, que parecia externo, revela sua verdadeira natureza: sempre foi doméstico.
A maior parte dessas operações foi contratada entre 2003 e 2014, período marcado por uma política externa ambiciosa. O objetivo de ampliar a influência brasileira era legítimo. O problema foi a ausência de disciplina para sustentar essa ambição.
O Brasil não falhou por querer ser relevante. Falhou por confundir influência com complacência.
E a lição é simples, ainda que incômoda: crédito sem critério não é política pública, é transferência de risco.
No fim, não há geopolítica capaz de anular a matemática.
O que não é pago por quem deve é pago por quem garante.
No fim, o Estado decidiu por todos. O risco foi coletivo. O benefício, seletivo. E a conta, inevitavelmente, voltou para quem nunca participou da decisão.
