Da Rússia revolucionária ao Brasil: como a falta de foco pode definir quem vence
Entre 1918 e 1922, a Rússia foi palco de uma das guerras civis mais sangrentas do século XX. Após a Revolução de Outubro, os bolcheviques, liderados por Lenin, enfrentaram uma frente ampla de opositores. Para garantir a sobrevivência do regime recém-nascido, foi criado o Exército Vermelho, organizado sob a liderança militar de Leon Trotski.
Trotski impôs disciplina férrea, deserções eram punidas com fuzilamento, a propaganda ideológica acompanhava cada batalhão, e a guerra era apresentada como uma luta existencial: socialismo ou retorno ao passado. Essa clareza de propósito, aliada a uma organização centralizada, permitiu que os vermelhos resistissem mesmo em condições precárias.
Do outro lado, o Exército Branco reunia monarquistas, liberais, nacionalistas e até tropas estrangeiras. Apesar de terem recursos, apoio externo e até maior diversidade de aliados, faltava um objetivo comum. Enquanto discutiam se a Rússia deveria voltar ao czarismo ou se tornar uma república liberal, o Exército Vermelho avançava.
O preço da vitória foi altíssimo: milhões de mortos em combates, fome e repressão política, porém, ao final, a coesão dos vermelhos prevaleceu sobre a fragmentação dos brancos e garantiu ao bolchevismo o poder por mais de sete décadas.
O paralelo brasileiro
Trazendo essa lição histórica para o Brasil atual, isso pode acontecer.
A esquerda brasileira, como os Vermelhos, consegue se organizar em torno de um núcleo de consensos, papel central do Estado e defesa de direitos. Diverge em pontos específicos, mas quando se trata de disputar o poder, atua de forma disciplinada e com discurso claro.
A direita, por sua vez, lembra os brancos: reúne grupos numerosos e influentes, mas fragmentados. Liberais, conservadores, militares e populistas compartilham a rejeição à esquerda, mas não conseguem formular um projeto unificado de país. O resultado é dispersão de forças e dificuldade em sustentar alianças duradouras.
A lição de Trotski e Lenin
O exemplo russo mostra que a política não se decide apenas pela força numérica, mas pela capacidade de foco. Lenin e Trotski entenderam isso ao transformar um movimento revolucionário frágil numa máquina disciplinada de guerra e propaganda.
Se a direita brasileira não aprender essa lição e continuar se dividindo em múltiplas agendas e lideranças, pode repetir o destino dos Brancos: ser numerosa, ter apoio de parcelas expressivas da sociedade, mas perder espaço para um adversário que sabe exatamente o que quer.
Na Rússia, a falta de foco custou a derrota. No Brasil, pode custar a manutenção da esquerda no poder.
Paulo Roberto Garcia - Engenheiro de Produção - Universidade de São Paulo
