BETO BELLINI
Durante muito tempo, atividades culturais foram vistas apenas como entretenimento ou expressão simbólica da sociedade. Teatro, música, dança, cinema, literatura, festas populares, exposições e manifestações tradicionais eram frequentemente analisados somente sob a óptica artística ou social. No entanto, essa visão é limitada diante da relevância que a cultura possui para a economia contemporânea. Hoje, compreender os benefícios econômicos das atividades culturais é essencial para reconhecer seu papel estratégico no desenvolvimento local, regional e nacional.
A chamada economia da cultura movimenta cadeias produtivas complexas. Um espetáculo teatral, por exemplo, não envolve apenas artistas em cena. Há técnicos de iluminação e som, figurinistas, cenógrafos, produtores, profissionais de comunicação, designers gráficos, bilheteiros, seguranças, prestadores de serviços e fornecedores diversos. O mesmo acontece com festivais musicais, feiras literárias, mostras de cinema ou eventos tradicionais. Cada atividade cultural gera emprego, renda e circulação de capital.
Além dos postos de trabalho diretos, existe um importante efeito multiplicador sobre outros setores econômicos. Eventos culturais atraem público para restaurantes, hotéis, transportes, comércio local e serviços turísticos. Uma mostra de teatro em uma cidade do interior, por exemplo, pode aumentar a ocupação hoteleira, estimular vendas no comércio e fortalecer pequenos empreendedores da gastronomia. Nesse sentido, investir em cultura significa também aquecer economias urbanas e regionais.
Outro aspecto fundamental está no fortalecimento da economia criativa. Esse conceito engloba atividades baseadas em conhecimento, talento e inovação, nas quais o valor econômico surge da criatividade humana. Design, audiovisual, publicidade, moda, games, artesanato e produção artística integram esse universo. Em um cenário global cada vez mais orientado por inovação e identidade, cidades e países que estimulam setores criativos ampliam competitividade e diversificam suas matrizes econômicas.
A cultura também contribui para valorização territorial. Municípios que investem em agendas culturais consistentes fortalecem sua imagem pública, atraem visitantes e consolidam marcas identitárias. Festivais tradicionais, patrimônios históricos preservados e circuitos artísticos permanentes transformam-se em ativos econômicos relevantes. Não por acaso, diversas cidades no mundo utilizam cultura como eixo de revitalização urbana e desenvolvimento turístico.
Do ponto de vista social, os benefícios econômicos da cultura dialogam com inclusão e formação cidadã. Projetos culturais em comunidades ampliam acesso ao conhecimento, desenvolvem habilidades, estimulam empreendedorismo e criam oportunidades para jovens. Quando políticas públicas culturais alcançam territórios periféricos, elas não apenas promovem expressão artística, mas também podem reduzir desigualdades ao gerar trabalho e renda.
Apesar de tantos impactos positivos, o setor cultural ainda enfrenta desafios como financiamento irregular, descontinuidade de políticas públicas e dificuldade de mensuração econômica mais ampla. Muitas vezes, investimentos em cultura são tratados como despesas secundárias, quando deveriam ser compreendidos como aplicação estratégica em desenvolvimento.
Defender a cultura, portanto, não é apenas preservar arte, memória e identidade. É reconhecer que atividades culturais produzem riqueza, movimentam mercados, estimulam inovação e fortalecem comunidades. Em tempos de debate sobre crescimento sustentável e desenvolvimento humano, a cultura deve ocupar lugar central nas agendas econômicas. Afinal, investir em cultura é investir em pessoas, cidades mais dinâmicas e economias mais criativas.
Gilberto César Ortolan Bellini, mestre em Administração, professor da Fatec/STZ e Unip/RP. Membro da ASEL – Academia Sertanezina de Letras - e da Rabugentos Cia Teatral
