COP30 x COP28: a liderança que o Brasil possui, mas não consegue transformar em resultado diplomático

COP30 x COP28: a liderança que o Brasil possui, mas não consegue transformar em resultado diplomático
24/11/2025

A comparação entre a COP28 (Dubai) e a COP30 (Belém) é desconfortável para quem tenta vender a conferência brasileira como um marco histórico. Dubai entregou decisões objetivas, operacionalizou o Fundo de Perdas e Danos no primeiro dia e, pela primeira vez, registrou no Global Stocktake uma chamada explícita para “a transição para longe dos combustíveis fósseis”. Belém, por sua vez, acumulou anúncios dispersos, rascunhos inconclusos e expectativas que se dissolveram à medida em que a conferência avançou. A COP30 prometia liderança, mas chegou perto demais de entregar apenas frustração.

 

Dubai entregou, Belém tropeçou

Dubai, com todos os seus problemas e contradições, conseguiu empurrar o sistema internacional para uma direção clara. Belém, não. As negociações da COP30 ficaram presas em detalhes burocráticos do NCQG (Novo Meta Quantitativa Coletiva) e no esqueleto das NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas) 2035. Nada que mudasse o jogo. Nada que rivalizasse com Dubai. A COP30 sofreu com aquilo que as diplomacias evitam admitir: falta de foco, falta de texto, falta de comando e excesso de publicidade.

 

Lula volta a Belém para “salvar” a conferência e expõe a gravidade do problema

Quando o presidente Lula anunciou que retornaria a Belém na semana decisiva, a interpretação não foi diplomática, foi política. A avaliação de analistas, incluindo a da Arko Advice, era simples: o Planalto temia a manchete internacional “a COP30 não deu certo”, ou seja, o governo passou a se preocupar menos com o conteúdo dos acordos e mais com evitar o constrangimento global. A volta de Lula simbolizou isso, uma tentativa de apagar o incêndio institucional de uma COP que parecia patinar desde o início. Se a conferência dependia da presença do presidente para não desandar, algo estruturalmente errado já estava em curso.

 

Alemanha anuncia 1 bilhão e expõe o desequilíbrio do debate

O anúncio da Alemanha de 1 bilhão de euros para o fundo florestal brasileiro virou manchete e ajudou o governo a respirar politicamente, mas o gesto, embora significativo, está muito longe de resolver a crise estrutural de financiamento climático. O dinheiro é relevante, entretanto paliativo. Ao mesmo tempo, a própria Alemanha enfrenta cortes no seu orçamento climático, o que apenas reforça o óbvio, as potências prometem muito mais do que entregam. O aporte alemão para o Brasil é útil, mas não altera a matemática global que continua negativa para o Sul Global.

 

Infraestrutura precária, custos altos e desorganização reforçaram a narrativa do fracasso

Enquanto Brasília tentava vender a COP30 como um “divisor de águas”, a imprensa nacional e internacional destacava o oposto: falhas estruturais em Belém, custos inflacionados, transporte insuficiente, sobrecarga logística e atrasos organizacionais. A conferência que deveria demonstrar liderança acabou exposta por improvisos. A crítica mais dura, mas verdadeira, é que o Brasil dedicou mais energia à cenografia do evento do que ao seu conteúdo diplomático.

 

A ironia brutal: o Brasil tem a solução em casa, mas não consegue transformá-la em liderança global

Há 50 anos, o Brasil é um caso pioneiro de descarbonização no transporte leve: Proálcool, etanol como política de Estado, frota flex, gasolina com mistura obrigatória, E30 a partir de 2025, RenovaBio e expansão de biometano. Nenhum país do G20 tem um histórico semelhante. Enquanto o mundo discute “reduzir emissões no transporte”, o Brasil já fez isso. Enquanto negociadores brigam por palavras em documentos, o país tem tecnologia, mercado e resultados reais. A ironia é que a COP30, realizada em território nacional, não conseguiu projetar essa liderança para o plano global. Ao contrário: perdeu-se em anúncios improvisados, expectativas infladas e na tentativa de evitar o rótulo de fracasso.

Síntese final: Belém não entregou o que prometeu e isso precisa ser dito sem meias-palavras

A COP30 não produziu um texto transformador, não redefiniu o financiamento climático, não apresentou inovação equivalente à de Dubai e não consolidou o Brasil como liderança climática global. O aporte alemão ajudou na narrativa. A volta de Lula tentou segurar a política. O trabalho técnico avançou, é verdade, mas não o suficiente para justificar a grandiosidade da expectativa. No balanço final, Belém ficou no meio do caminho: grande demais para ser ignorada, pequena demais para mudar a história.

O Brasil, que tem na prática o modelo de descarbonização mais bem-sucedido do transporte leve em economias grandes, sai da COP30 com uma dívida política: transformar resultados domésticos em liderança diplomática. Sem isso, continuará vivendo a contradição que marcou a conferência: capacidade real em casa e incapacidade de transformar isso em poder internacional.

 

Paulo R Garcia -

Engenheiro de Produção - Universidade de São Paulo