Carrossel financeiro: grupo usava jogo do bicho, construtoras e bets para lavar quase R$ 100 milhões

26/01/2026

Um grupo criminoso alvo da Polícia Civil é investigado por movimentar quase R$ 100 milhões por meio de um esquema estruturado e sofisticado de lavagem de dinheiro, denominado pelos investigadores como “carrossel financeiro”. A organização atuava há décadas e utilizava desde o jogo do bicho até empresas de fachada e plataformas de apostas on-line (bets) para ocultar a origem ilícita dos recursos.

A investigação revelou que o grupo obtinha dinheiro inicialmente com jogos de azar — prática ilegal no Brasil — e, em seguida, fazia o capital circular por diversas empresas, incluindo construtoras, incorporadoras, empresas de importação e exportação, comércios, agropecuárias e negócios ligados ao comércio de peixes. Após essa circulação, os valores eram concentrados em uma empresa de apostas on-line com sede em Ribeirão Preto (SP) e, por fim, retornavam diretamente ao CPF do líder da organização, com aparência de legalidade.

Segundo o delegado Ivan Luis Constâncio, da Divisão Especializada em Investigações Criminais (Deic) de Piracicaba, as movimentações financeiras são totalmente incompatíveis com as rendas declaradas pelos investigados. “O esquema funciona como um ‘carrossel financeiro’: os recursos ilícitos transitam por empresas como construtoras e incorporadoras. Posteriormente, o capital é injetado na empresa de apostas on-line, retornando à cúpula da organização com aparência de licitude”, explicou o delegado.

 

Uso de ‘laranjas’ e transferências fracionadas

As apurações também indicam que a quadrilha utilizava pessoas de origem humilde para evitar suspeitas. Um dos investigados, por exemplo, declara salário de R$ 1,8 mil como operador de caixa, mas movimentou milhões de reais via Pix nos últimos meses. O grupo contava ainda com gerentes e operadores financeiros responsáveis por pulverizar grandes quantias por meio de transferências e depósitos fracionados, prática conhecida como “smurfing”. Além disso, eram comuns transações imobiliárias em dinheiro vivo e a aquisição de bens de alto valor em nome de terceiros.

Em um dos casos, um investigado comprou um imóvel avaliado em R$ 800 mil, pago integralmente em espécie, após receber quase R$ 40 milhões de outro alvo da investigação, residente em Mogi Mirim (SP). Somente em um semestre de 2024, o líder da quadrilha chegou a movimentar mais de R$ 25 milhões. De acordo com a polícia, considerando a compra de bens e ativos, a movimentação total do esquema pode alcançar R$ 500 milhões.