AMÉRICO PERIN

08/09/2026

Acho que já chega, não? Passamos do ponto que ainda poderia ser considerado tolerável.

A crise na educação brasileira, suas carências e perspectivas precisam ser urgentemente consideradas. Mas por pessoas realmente comprometidas com a educação e de reconhecido saber na área. Ainda é tempo! Ainda estão vivos educadores que realmente “foram educados”, que passaram por exame de admissão para serem promovidos do curso primário para o antigo ginásio, provando que efetivamente estavam aptos para enfrentar outra etapa do conhecimento. E depois seguiram pela vida de estudante tendo que se mostrar realmente merecedores de uma promoção... Consequência disso? Como já disse anteriormente, vários ainda estão na ativa. E são os melhores no que fazem. Então, vamos aproveitá-los enquanto é tempo...

Critica-se muito, nestes dias atuais, a forte “freada” ocorrida nos financiamentos que “beneficiavam alunos” de cursos ditos superiores. Ora, no meu entender, esse financiamento, se tivesse sido bem feito, seria realmente a grande oportunidade para que acontecesse um pouco de justiça social. Mesmo em se tratando de um país que vive em crise desde sempre, a falta de empregos deixa um enorme abacaxi nas mãos do formando. Portanto, concordo que se tenha mesmo de dar uma parada no dinheiro fácil que muitas “faculdades” estavam recebendo, para depois retomarmos o caminho de forma mais produtiva.

Ocorre que, coincidentemente ou não, junto com aquele financiamento surgiu um enorme número de faculdades que, na verdade, foram beneficiadas enormemente pelo “dinheiro fácil” que recebiam do governo. Como disse certa vez meu filho, “se o candidato esquecesse sua carteira de identidade em cima do balcão da secretaria, quando voltasse para buscá-la já estaria matriculado”. E, enquanto isso, vamos nos conformando com estudantes de Letras que frequentemente nem sabem ortografia, e mais: não conseguem se expressar por escrito, não têm pensamento claro e seguro, não foram habituados, desde cedo, a argumentar, a pensar, a analisar, a discernir, a ler e a escrever.

Uma grande quantidade dessas ditas “faculdades” deu como aptos professores que não sabem o nome do vice-presidente da República, professores de Português que perguntam “naonde” eu entrego “meus documento” e que são flagrados numa sala de aula ensinando os alunos a separar sílabas, como foi o caso da palavra passarinho - no exemplo colocado no quadro para a classe entender melhor, foi escrito “pa-ssa-ri-nho...” Isso sem falar do doutor que se me apresentou como “adevogado” e não entendeu por que não lhe dei a defesa da causa. Tem mais, tem muito mais... Certa vez, um colega de serviço, que estudava engenharia e ia fazer uma prova naquela noite, perguntou-me o que era maior: 0,5 ou 0,05... E ele estava falando sério! E os dados assustadores de reprovação no exame da Ordem dos Advogados do Brasil?

Os exames de igual caráter para egressos de cursos de medicina ainda não apresentam resultado tão incrivelmente ruim, mas já mostram sinais que começam a nos deixar alertas...

Até onde essa barbaridade vai nos levar não sei. Mas, certamente, não seremos campeões de produtividade tão brevemente e ainda ocuparemos por longo tempo nossa posição no final da lista dos países cujo povo padece de melhor educação – em todos os sentidos.

A formação de um povo pode ser olhada sob vários aspectos. Aqui, eu falo da formação cultural, informação, crescimento, consciência dos direitos e deveres de quem vive numa democracia verdadeira, que se interesse por um povo formado e informado. E é preciso que nossos líderes, sejam quais forem, tenham em mente que este assunto deve ser um interesse primordial em sua atividade.

Aceitamos isso? Pois é, não sei se somos um povo cordial. Receio que sejamos desinteressados, mal orientados e conformados, achando que é só isso que merecemos. Ou nem pensamos no assunto.