Banco Master - do auge ao colapso em uma década e a controversa soltura do seu principal acionista

Banco Master - do auge ao colapso em uma década e a controversa soltura do seu principal acionista
08/12/2025

Era pouco mais de 6h quando agentes da Polícia Federal bateram à porta de Daniel Vorcaro, principal acionista do Banco Master. Poucos dias depois, o empresário deixaria a delegacia pela porta da frente, solto após decisão judicial que surpreendeu até parte do mercado financeiro. Enquanto Vorcaro recuperava a liberdade, o banco que ajudou a transformar em um dos que mais cresciam no país era liquidado pelo Banco Central, em meio a indícios de uma fraude bilionária que abalou a confiança de investidores e expôs falhas na supervisão do sistema.

A queda do Master foi tão rápida quanto sua ascensão. Até poucos meses, a instituição aparecia como um caso raro de explosão de lucro e expansão acelerada em um setor dominado pelos grandes bancos. O apetite incomum por carteiras de crédito, especialmente de risco elevado e a emissão agressiva de títulos de renda fixa, enchia os olhos de investidores em busca de retornos acima da média. Para muitos, o banco havia encontrado uma fórmula quase mágica de escalar resultados em tempo recorde.

A euforia escondeu sinais que agora parecem gritantes. Com a chegada de Daniel Vorcaro ao controle em 2018, o antigo Banco Máxima, que nasceu como corretora nos anos 1970 e se tornou banco nos 1990, assumiu uma estratégia que poucos concorrentes tinham disposição de replicar. A compra de carteiras de crédito mal avaliadas, operações com empresas de fachada e negócios lastreados em ativos frágeis formaram um castelo financeiro que dependia de crescimento contínuo para se sustentar.

A virada dramática começou quando investigações da Polícia Federal e do Banco Central passaram a revelar uma engrenagem de créditos possivelmente inexistentes, garantias infladas e operações que mascaravam o risco real da instituição. Parte das transações envolvia empresas sem atividade comprovada. Outras beneficiavam intermediários com vínculos pouco claros. Todas, segundo os investigadores, contribuiam para criar a aparência de solidez que sustentava a expansão do banco.

Um ponto sensível da investigação mira a relação do Master com o Banco de Brasília (BRB), estatal controlada pelo governo do Distrito Federal. A parceria entre os dois bancos ampliou a exposição do BRB a operações estruturadas pelo Master, algumas agora classificadas como de alto risco. A suspeita de que recursos públicos possam ter sido direcionados a operações irregulares adicionou um componente político ao caso, que passou a mobilizar autoridades federais e estaduais.

A liquidação extrajudicial determinada pelo Banco Central escancarou a dimensão do problema. O Fundo Garantidor de Créditos foi acionado para cobrir milhares de investidores, muitos deles atraídos por produtos de renda fixa que prometiam retornos superiores aos do mercado. Já funcionários e clientes enfrentam um cenário de incerteza, enquanto auditores tentam destrinchar o tamanho real do rombo deixado pela instituição.

A soltura rápida de Vorcaro, decretada poucas dias após sua prisão, só ampliou o debate. Para parte do mercado, a decisão alimenta dúvidas sobre a efetividade das investigações e reforça a percepção de que a supervisão bancária brasileira falhou ao não detectar, a tempo, os sinais de deterioração estrutural do Master. Para outros, ainda é cedo para conclusões. O caso é complexo, envolve múltiplos atores e seguirá produzindo desdobramentos.

O colapso do Banco Master, porém, deixa uma questão incômoda que atravessa o sistema financeiro, o setor público e o Judiciário: como uma instituição vista como promissora pôde ruir tão rapidamente sem que mecanismos de controle  internos ou externos, soassem o alarme?

A resposta, quando vier, deve redefinir não apenas a imagem de um banco que cresceu muito, rápido demais, mas também os limites e responsabilidades de quem deveria ter evitado que a história chegasse tão longe.

 

Paulo Roberto Garcia