A República Velha: mais atual do que imaginamos
“A história não se repete. Mas, por vezes, rima de forma inquietante.”
Há quase um século, o Brasil vivia sob um regime que se apresentava como uma República moderna. Havia eleições, havia Congresso, havia tribunais, havia Constituição.
Havia tudo.
Menos a sensação de que o povo efetivamente governava.
A República Velha entrou para a história como o período das oligarquias, dos coronéis e da política do café com leite. Talvez a principal característica daquele regime tenha sido outra: a crescente percepção de que o poder pertencia sempre aos mesmos.
Quando uma sociedade começa a acreditar que o poder pertence sempre aos mesmos, a mudança deixa de ser uma opção. Torna-se uma exigência.
Durante décadas, as oligarquias estaduais controlaram os mecanismos políticos do país. Influenciavam eleições, escolhiam sucessores, definiam alianças e delimitavam quem podia ou não participar das decisões nacionais.
As eleições existiam.
Porém, a dúvida crescia: quem realmente escolhia os governantes?
O voto de cabresto tornou-se símbolo daquele período. Em muitas regiões, os resultados eleitorais eram conhecidos antes mesmo da abertura das urnas. Não porque os eleitores fossem previsíveis, mas porque o sistema havia sido construído para produzir determinados resultados.
A consequência inevitável foi o surgimento de algo que nenhum governo consegue ignorar por muito tempo: a desconfiança.
A confiança é o verdadeiro patrimônio de qualquer regime político.
Quando ela desaparece, a legalidade passa a ser insuficiente.
Afinal, é suficiente que algo seja legal para que seja considerado legítimo?
Essa pergunta começou a ecoar pelo Brasil nas décadas de 1920 e 1930.
E continua ecoando.
O maior erro das oligarquias nunca foi concentrar poder. Foi acreditar que esse poder seria eterno.
Enquanto isso, o país mudava.
Novos grupos surgiam. As cidades cresciam. A economia se transformava. Novas vozes exigiam participação.
Mas o sistema parecia incapaz de ouvir.
A República Velha não caiu porque lhe faltavam instituições.
Caiu porque uma parcela crescente dos brasileiros passou a acreditar que as instituições já não trabalhavam para o país, mas para sua própria preservação.
Há cem anos, o Brasil discutia concentração de poder, representatividade, influência sobre os processos eleitorais e distanciamento entre governantes e governados.
Talvez por isso a República Velha pareça tão contemporânea.
As formas mudam, os personagens mudam, os instrumentos mudam.
Mas a tentação de concentrar poder permanece a mesma.
A história ensina que nenhuma sociedade aceita indefinidamente a sensação de exclusão. Nenhuma democracia permanece saudável quando uma parcela crescente da população passa a acreditar que sua voz deixou de importar.
A República Velha não terminou porque era fraca.
Terminou porque acreditou ser forte demais para mudar e talvez seja a lição mais atual de todas.
As oligarquias da República Velha acreditavam controlar o presente.
Não perceberam que estavam perdendo o futuro.
Paulo Roberto Garcia
