A passagem era para Milão
Eu havia comprado uma passagem para a Milão.
Durante meses, viajei antes de viajar. Imaginei as estradas ladeadas de ciprestes, as colinas cobertas de vinhedos, as casas de pedra recebendo o último sol da tarde. Pensei nas pequenas cidades em que a vida parece ter encontrado uma velocidade mais humana.
Queria uma mesa perto da janela, um prato de massa feito sem pressa, um vinho que merecesse uma segunda taça. Queria caminhar por ruas antigas, ouvir os sinos de uma igreja, entrar numa venda apenas porque o cheiro do pão me convidara.
Mais adiante, quem sabe, seguiria para o norte, para ver os Alpes.
Não esperava uma viagem perfeita. Haveria chuva, alguma estrada interditada, um restaurante fechado justamente no dia da visita. Essas coisas pertencem às viagens. Eu estava preparado para os pequenos desencontros de um caminho escolhido.
Arrumei a mala com o cuidado de quem guarda nela um pouco de esperança.
No aeroporto, encontrei outros passageiros. Alguns falavam animadamente sobre o destino. Outros, mais experientes, recomendavam prudência. Eu escutava, mas já estava longe. Uma parte de mim havia chegado antes e me esperava numa varanda, diante dos vinhedos.
Embarquei.
Lembro-me de olhar pela janela enquanto as luzes da cidade diminuíam. Depois, fechei os olhos.
Quando acordei, estávamos descendo.
A primeira coisa que estranhei foi a luz.
Não havia aquela claridade dourada com que eu tantas vezes sonhara. Uma névoa espessa cobria o chão. O céu parecia baixo, pesado, quase encostado nos telhados.
Pensei que fosse o tempo.
Só compreendi que alguma coisa estava profundamente errada quando vi o nome no terminal:
Bem-vindos a Nivária.
Conferi a passagem: era para Milão.
Olhei novamente para a placa. Nivária.
Procurei uma funcionária e expliquei que devia haver algum engano. Ela examinou meu bilhete, olhou para mim e indicou a saída.
— Mas eu não comprei uma viagem para cá.
Ela já chamava o próximo passageiro.
Do lado de fora, os ônibus esperavam com os motores ligados.
Pela janela, vi prédios de uma mesma cor indefinida, entre o cinza e o bege. Nas praças, as pessoas atravessavam depressa, de cabeça baixa. Havia árvores, mas a poeira sobre as folhas fazia parecer que também elas tinham desistido de mostrar o verde.
No hotel, abri a mala.
A camisa que eu escolhera para o primeiro jantar pareceu inadequada. Os óculos de sol, inúteis. Sobre a cama, deixei o pequeno roteiro com os nomes das cidades que pretendia conhecer.
Foi então que senti a tristeza inteira.
Até aquele momento, eu estivera ocupado tentando entender o erro. Agora, precisava olhar para tudo aquilo que não aconteceria.
A mesa junto à janela. O vinho. A estrada entre os ciprestes. A mão da minha mulher sobre a minha, enquanto escolhíamos onde passar o dia seguinte.
Desci à recepção e voltei ao aeroporto. Tentei comprar uma passagem de volta.
O homem atrás do balcão abriu um livro grosso, percorreu algumas páginas e respondeu:
— A próxima possibilidade de partida será daqui a quatro anos.
Esperei que ele sorrisse.
Ele não sorriu.
— Quatro anos?
— É o prazo.
Perguntei se poderia deixar a reserva feita.
O homem fechou o livro.
— Ainda não sabemos se haverá voo.
Voltei ao hotel com uma tristeza enorme dentro do coração e perguntas sem respostas.
Quatro anos não eram uma demora no aeroporto. Eram aniversários, Natais, encontros de família. Eram pessoas envelhecendo, crianças crescendo, planos que talvez já não pudessem esperar quando chegasse a hora de partir.
Naquela noite, quase não dormi.
Na manhã seguinte, fui buscar café. A mulher que me serviu percebeu minha expressão e perguntou de onde eu vinha.
Mostrei a passagem.
Ela demorou os olhos sobre o papel.
— Eu também sou do Brasil.
Pela primeira vez desde o desembarque, tive vontade de conversar.
Sentamos perto da porta. Ela me contou que havia encontrado outros viajantes. Alguns ainda carregavam os roteiros no bolso. Um homem guardava uma reserva de restaurante; uma senhora trouxera um chapéu para caminhar ao sol.
Fiquei ali por algum tempo, ouvindo.
Depois, voltei ao quarto e tirei meu roteiro de cima da cama. Alisei as páginas, que já começavam a amassar, e guardei-o na gaveta.
Eu precisaria viver aqueles dias. Levantar, trabalhar, cuidar de quem estava comigo. Responder às perguntas de sempre, cumprir os compromissos, sentar à mesa e encontrar alguma coisa para dizer.
Mas, quando a noite chegou, não consegui pensar em nada disso.
Abri novamente a mala. No fundo, entre duas camisas, estava o guia da Toscana. Minha mulher havia dobrado a ponta de uma página para marcar uma cidade que queria conhecer. Ao lado da fotografia de uma pequena praça, escrevera a lápis: “Vamos tomar um café aqui”.
Passei o dedo sobre a letra dela.
Foi por aquela frase que chorei.
Havíamos feito tantos planos pequenos. Escolhido uma hospedagem, separado uma roupa, conversado sobre o que pediríamos no primeiro jantar. Tínhamos economizado, esperado, contado os dias. E agora eu estava ali, sentado na beira de uma cama desconhecida, tentando compreender como se continuava depois de chegar tão longe de tudo o que se desejava.
Quatro anos.
Pensei em meu rosto no espelho ao fim daquele tempo. Na idade das pessoas que eu amava. Em quem ainda estaria à mesa quando pudéssemos, talvez, fazer outra viagem.
Minha mulher se aproximou e sentou ao meu lado. Viu o guia aberto, reconheceu a página e ficou em silêncio. Segurei sua mão com força. Eu queria lhe pedir desculpas, embora não soubesse exatamente pelo quê. Por ter acreditado tanto. Por ter descrito tantas vezes a vista da nossa janela. Por não conseguir levá-la embora.
Ela encostou a cabeça em meu ombro.
Ficamos assim até o quarto escurecer.
Antes de dormir, pus a passagem sobre a mesa de cabeceira. Ainda se lia Milão. A impressão estava nítida, a data correta. Guardei-a dentro do guia, na página do café que não tomaríamos.
Depois, apaguei a luz e pedi a Deus que nos desse forças para atravessar aqueles anos. Pedi por quem já não tinha tempo para esperar. Pedi que, quando chegasse o dia, ainda houvesse um avião, uma porta aberta, algum caminho possível.
E que não nos faltasse coragem para embarcar.
Ao meu lado, minha mulher adormeceu. Continuei segurando sua mão.
Eu tinha medo de dormir e acordar mais uma vez naquele lugar.
Mas tinha ainda mais medo de que, depois de quatro anos, ela já não me perguntasse quando iríamos para a Itália.
