A marcha de Nikolas
Na tarde de 25 de janeiro, a Praça do Cruzeiro, em Brasília, foi tomada por um cenário difícil de ignorar para quem esteve presente: um mar de pessoas, bandeiras erguidas, famílias inteiras, jovens, idosos e trabalhadores que caminharam quilômetros para acompanhar a chegada do movimento Acorda Brasil. A marcha, iniciada em Minas Gerais e liderada pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), transformou o esforço físico em símbolo político, unindo milhares de brasileiros em torno de denúncias de corrupção, restrições à liberdade e descrença nas instituições.
A atmosfera era de emoção e empolgação. A cada novo grupo que chegava, aplausos, orações e palavras de incentivo se espalhavam pela praça. Muitos relatavam a sensação de estarem participando de algo maior do que um simples ato político: tratava-se, para eles, de serem vistos e ouvidos. O cansaço da caminhada era compensado pela convicção de que o gesto, por si só, já era uma forma de protesto.
Ainda assim, para quem acompanhou o dia apenas pela televisão, o acontecimento simplesmente não existiu ou foi brutalmente minimizado. Algumas emissoras chegaram a noticiar que apenas 18 mil pessoas estariam presentes na Praça do Cruzeiro, número que contrasta de forma constrangedora com as imagens registradas por drones, transmissões independentes e relatos de quem esteve no local. Reduzir um mar humano a uma estatística modesta não é erro de cálculo: é manipulação narrativa.
O silêncio ou a distorção da grande mídia televisiva não é um detalhe secundário. É o elemento central do episódio. Em um país onde a TV aberta ainda exerce enorme influência sobre a percepção da realidade, ignorar ou minimizar deliberadamente uma mobilização dessa magnitude não pode ser tratado como falha jornalística. Trata-se de covardia editorial, uma ganância pela conta de propaganda do governo e de uma escolha política clara: a de negar visibilidade a um movimento que escapa ao controle narrativo tradicional.
Marchas políticas sempre incomodaram o poder e aqueles que o mediam. Entre 1925 e 1927, a Coluna Prestes percorreu mais de 25 mil quilômetros pelo interior do Brasil. Movimento de esquerda, armado e ligado ao tenentismo, a Coluna denunciava a corrupção estrutural da Primeira República, o voto fraudado, o domínio das oligarquias regionais e a inexistência do Estado para grande parte da população. Ao atravessar vilarejos esquecidos, expunha um Brasil profundo que não aparecia nos salões do poder nem nas páginas confortáveis da imprensa da época.
A Coluna Prestes compreendeu cedo que sua maior força não estava apenas nas armas, mas na marcha. O corpo em movimento revelava um país real, invisível e abandonado. Por isso foi perseguida, criminalizada e frequentemente retratada como banditismo. Quando não era atacada, era silenciada. O objetivo era claro: preservar a legitimidade de um sistema que já não conseguia se justificar diante da realidade.
Cem anos depois, em um contexto completamente diferente, o movimento Acorda Brasil resgata a marcha como linguagem política. Não há aqui continuidade ideológica. A Coluna Prestes foi um movimento revolucionário de esquerda, externo às instituições. O Acorda Brasil é um movimento de direita, institucional, pacífico e liderado por um parlamentar eleito. Ainda assim, ambos compartilham um ponto essencial: a tentativa de escancarar os Brasis da corrupção, da sensação de falta de liberdade e da ruptura entre sociedade, instituições e mídia.
Na Praça do Cruzeiro, o que se via era justamente esse Brasil que não se reconhece mais na narrativa oficial. Pessoas que afirmam sentir-se excluídas do debate público, desacreditadas das instituições e profundamente desconfiadas dos grandes meios de comunicação. A caminhada até Brasília, para esses manifestantes, não foi apenas um trajeto geográfico, mas um percurso simbólico: chegar ao centro do poder para dizer que o Brasil real existe, mesmo quando não aparece na tela.
A reação da televisão brasileira diante desse fato é, no mínimo, vergonhosa. Não se trata de discordar do movimento ou de suas pautas o dissenso é legítimo. O que se expõe é a recusa em informar com honestidade. Ao minimizar números, omitir imagens e tratar a mobilização como irrelevante, a grande mídia abandona sua função pública e assume o papel de agente político.
Se no século XX a imprensa alinhada ao poder combatia a Coluna Prestes com criminalização aberta, hoje o método é mais sofisticado e igualmente eficaz: a invisibilização. Não se debate, não se contextualiza, não se mostra. Silencia-se. Trata-se de um jornalismo que já não confia no próprio público e prefere decidir o que pode ou não ser visto.
A diferença fundamental entre os dois períodos históricos é que, hoje, o monopólio da informação está rachado. Redes sociais, transmissões independentes e registros feitos pelos próprios participantes romperam o cerco informacional. Ainda assim, a televisão segue sendo o principal formador de opinião para milhões de brasileiros e seu silêncio continua sendo uma poderosa ferramenta de exclusão política.
Quando o Brasil volta a marchar, seja à esquerda no século XX ou à direita no século XXI, o gesto aponta para a mesma crise estrutural: quando as instituições deixam de representar e a mídia deixa de mediar, o corpo volta a falar. Caminhar até Brasília é um grito silencioso que diz que há um país em movimento, mesmo quando insistem em fingir que ele não está lá.
Quando o Brasil marcha e a televisão se esconde, o problema não está nos pés cansados que caminham, mas nos olhos que se recusam a enxergar .
Paulo Roberto Garcia
