A Lupo e Araraquara: a história de uma cidade moldada por uma indústria centenária e os impactos da mudança produtiva para o Paraguai

01/12/2025

A trajetória da Lupo, fundada em 1921, se confunde com a formação de Araraquara. A migração recente de parte de sua produção para o Paraguai reabriu debates sobre competitividade, emprego e futuro industrial, e lançou luz sobre um fenômeno nacional: o êxodo industrial brasileiro.

Um sonho italiano no interior paulista

O imigrante italiano Henrique Lupo iniciou em 1921 uma pequena produção artesanal de meias, em um galpão no quintal de sua casa. Um país ainda dependente de importações, sua aposta era ousada: fabricar no Brasil o que vinha de fora.

De pequena oficina a símbolo nacional

Entre as décadas de 1930 e 1950, a empresa cresceu impulsionada pelo desenvolvimento de Araraquara e pelo investimento precoce em tecnologia. Já na terceira geração, nos anos 1990 e 2000, modernizou processos, ampliou linhas e consolidou presença nacional.

A Lupo e a identidade de Araraquara

Mais que uma indústria, a Lupo moldou a vida social da cidade, gerou empregos, movimentou comércio, influenciou bairros e patrocinou iniciativas culturais. Trabalhar na Lupo tornou-se símbolo de pertencimento local.

A migração para o Paraguai

O anúncio de que parte da produção seria transferida para o Paraguai trouxe impacto emocional e econômico. A empresa cita alta carga tributária, custos trabalhistas, energia cara e competição asiática. No Paraguai, vigora o regime de Maquila, com imposto único de 1%, energia barata e menor burocracia.

O êxodo industrial brasileiro

A saída da Lupo não é caso isolado. Empresas brasileiras migram para países vizinhos em busca de menores custos.

Motivos: carga tributária pesada sobre a indústria, custos trabalhistas altos e insegurança jurídica, energia e logística caras.

Empresas que seguiram o mesmo caminho: – Levi’s, Guess e Puma: produção terceirizada no

Paraguai; calçadistas brasileiras como Kidy e Box Print: migração produtiva; automotivas como Ford e Mercedes-Benz: fechamento ou transferência de plantas; eletroeletrônicos como LG: redução de produção nacional

Quanto o Brasil perde

Até 2,5 empregos indiretos por vaga industrial perdida, redução de arrecadação de ICMS e ISS, perda de inovação tecnológica, queda da participação da indústria no PIB (de 27% para menos de 12%).

Impactos em Araraquara

Redução de contratações, efeito dominó em fornecedores e comércio, queda na arrecadação municipal, risco de perda do status de polo têxtil, impacto emocional na população.

 O caso Lupo materializa a desindustrialização brasileira:

Um processo que afeta cidades, famílias e cadeias produtivas. Araraquara agora enfrenta o desafio de preservar sua identidade industrial e repensar alternativas diante de um cenário global mais competitivo.

 Paulo Roberto Garcia