BETO BELLINI
A escalada do conflito no Irã não é apenas uma tragédia humanitária distante. Para o Brasil, ela representa uma ameaça concreta à estabilidade econômica conquistada com esforço nos últimos anos. Ignorar esse risco seria um erro estratégico.
O primeiro impacto é óbvio: o petróleo. Cada disparo no Oriente Médio reverbera nas bombas de gasolina brasileiras. O barril já registra alta significativa, e isso se traduz em fretes mais caros, alimentos mais caros e, inevitavelmente, inflação. Em um país que ainda luta para consolidar a queda dos juros, esse choque externo pode comprometer o poder de compra das famílias e travar o crescimento.
O agronegócio, motor das exportações brasileiras, também não escapa. O Irã é um parceiro relevante, especialmente na compra de milho e carne. Se o Estreito de Ormuz for bloqueado ou se as rotas comerciais forem desorganizadas, o Brasil perde mercado e receita. Mais grave: o país expõe sua dependência de regiões instáveis, mostrando que a diversificação de destinos ainda é insuficiente.
Há quem argumente que o Brasil pode lucrar com a alta do petróleo, beneficiando a Petrobras e a arrecadação pública. Mas esse ganho é ilusório. O que entra nos cofres da estatal sai do bolso da população em forma de combustível mais caro e inflação mais alta. É um jogo de soma zero, em que o cidadão comum sempre perde.
Os principais riscos para o Brasil se referem à alta do petróleo. O barril já subiu mais de 13% após os ataques recentes, cotado a US$ 82,37. Isso encarece combustíveis, fretes e insumos agrícolas. Analistas apontam que o maior risco é a aceleração da inflação, que pode comprometer o poder de compra das famílias e atrasar a queda dos juros. O agronegócio também é impactado. O Brasil exportou cerca de US$ 3 bilhões para o Irã em 2025. O fechamento parcial do Estreito de Ormuz e entraves logísticos podem reduzir esse fluxo. O Produto Interno Bruto (PIB) pode entrar em desaceleração, após crescer 2,3% em 2025. A economia já mostrava sinais de estagnação. O conflito adiciona incerteza em pleno ano eleitoral.
O maior perigo, porém, é político. Em ano eleitoral, a pressão inflacionária pode contaminar o debate público, polarizar ainda mais o país e dificultar decisões responsáveis de política monetária. A guerra no Irã, portanto, não é apenas um problema externo: é um teste para a maturidade institucional brasileira.
O Brasil precisa reagir com visão estratégica. Investir em fontes alternativas de energia, ampliar mercados de exportação e reduzir a dependência de combustíveis fósseis não são luxos, mas medidas de sobrevivência. A guerra no Irã nos lembra que a economia brasileira continua vulnerável a choques externos — e que a falta de planejamento cobra caro.
Em resumo, o conflito expõe nossas fragilidades e exige respostas rápidas. Se o Brasil não se preparar, o preço da guerra será pago aqui, nas prateleiras dos supermercados e nas urnas.
Gilberto César Ortolan Bellini, mestre em Administração, professor da Fatec/STZ e Unip/RP, membro da ASEL - Academia Sertanezina de Letras - e da Rabugentos Cia Teatral
