A geopolítica das manchetes

A geopolítica das manchetes
31/08/2026

Uma tarifa americana contra o Brasil é protecionismo.

Uma tarifa chinesa é salvaguarda.

Uma barreira europeia é política ambiental.

Curioso.

Até as barreiras comerciais parecem adquirir virtudes diferentes dependendo do passaporte de quem as impõe.

Nas últimas semanas, o brasileiro recebeu praticamente um curso intensivo sobre tarifas americanas. Aprendeu percentuais, produtos atingidos, declarações de Donald Trump, respostas do presidente Lula, opiniões de ministros, empresários e diplomatas. Descobriu a Lei da Reciprocidade Econômica e acompanhou quase diariamente a possibilidade de uma resposta brasileira.

Correto.

As medidas americanas são graves, afetam empresas brasileiras e possuem um componente político explícito que merece ser criticado.

Trump, além disso, facilita o trabalho. Não gosta de sutilezas. Quando ameaça, ameaça. Quando cria uma tarifa, comete a deselegância de chamá-la de tarifa.

Para os jornais, é quase uma gentileza.

O problema começa quando olhamos para o outro lado do planeta.

A China estabeleceu uma salvaguarda sobre as importações de carne bovina. Para o Brasil, foi definida uma cota de 1,106 milhão de toneladas. Dentro dela, permanece a tarifa de 12%. Acima do limite, incide uma sobretaxa adicional de 55%.

Faça a conta.

A tributação sobre a carne brasileira excedente pode chegar a 67%.

Sessenta e sete por cento, e não estamos falando de um mercado irrelevante. A China compra quase metade da carne bovina exportada pelo Brasil.

A medida foi noticiada pela imprensa brasileira. Portanto, sejamos justos: ninguém escondeu.

A notícia estava lá.

Em algum lugar.

Houve notícia. Só esqueceram de mandar junto a indignação.

Porque aparentemente uma sobretaxa chinesa de 55% possui propriedades diferentes de uma tarifa americana.

Não produz a mesma temperatura editorial. Não gera tantos discursos sobre soberania. Não exige tantos comentaristas indignados. Não ameaça imediatamente a dignidade nacional.

É apenas uma salvaguarda.

Uma palavra tranquilizadora.

Quase terapêutica.

A tarifa americana rapidamente abandonou as páginas econômicas e ganhou a política, a diplomacia e o debate nacional.

A chinesa permaneceu comportadamente no agronegócio.

Talvez bois realmente não sejam bons personagens para crises diplomáticas ou talvez, algumas bandeiras produzam manchetes melhores do que outras.

Então chegamos à Europa.

Desde janeiro está em sua fase definitiva o CBAM, mecanismo europeu de ajuste de carbono na fronteira. Produtos como ferro, aço, alumínio, cimento e fertilizantes passam a enfrentar custos relacionados às emissões para acessar o mercado europeu.

A justificativa ambiental existe e merece ser considerada, mas a Europa conseguiu uma pequena obra-prima de comunicação política: criou uma barreira econômica que chega acompanhada de uma causa moral.

É difícil indignar-se com uma barreira quando ela chega vestida de verde.

Aliás, talvez Trump devesse aprender alguma coisa em Bruxelas.

Seu grande erro pode não ter sido criar tarifas. Pode ter sido chamá-las de tarifas.

Se tivesse criado o Mecanismo Norte-Americano de Reequilíbrio Sustentável da Competitividade, talvez recebesse aplausos em algum seminário internacional.

Poderia até acrescentar a palavra “inclusivo”.

Sempre ajuda.

O produto brasileiro continuaria pagando mais para entrar, mas nós nos sentiríamos muito melhor.

É evidente que Estados Unidos, China e União Europeia não estão fazendo exatamente a mesma coisa.

A medida americana possui características políticas próprias. A chinesa é setorial e alcança outros fornecedores. O CBAM possui lógica ambiental e não foi criado especificamente contra o Brasil.

Reconhecer essas diferenças é intelectualmente necessário, mas não significa suspender o raciocínio.

No fim, há um empresário brasileiro tentando vender, um produto tentando entrar, uma barreira na fronteira e um custo.

Então talvez devêssemos fazer uma pergunta inconveniente:

Uma tarifa depende de quem a cobra?

Ou uma ainda pior:

Nossa indignação depende de quem a cobra?

Aqui o assunto deixa de ser comércio exterior.

Passa a ser jornalismo.

Há décadas os estudos sobre agenda-setting mostram algo fundamental: a imprensa não precisa dizer ao cidadão o que pensar.

Basta possuir enorme influência sobre o que ele pensa a respeito.

Todos os dias milhares de acontecimentos disputam nossa atenção.

Um recebe manchete. Outro ganha uma nota.

Um permanece uma semana nos telejornais. Outro desaparece em algumas horas.

Um recebe entrevistas, editoriais e comentaristas. O outro, três parágrafos.

Nenhuma mentira foi necessariamente publicada.

Esse é justamente o ponto.

Porque a parcialidade mais sofisticada não precisa da mentira.

Ela pode trabalhar perfeitamente com a verdade.

Basta selecionar.

Hierarquizar.

Repetir.

Escolher o tamanho da manchete.

E depois dizer, com absoluta tranquilidade:

“Mas nós noticiamos.”

Sim.

Noticiaram.

A questão é: noticiaram como?

A liberdade de imprensa é uma conquista fundamental da democracia. Justamente por isso devemos exigir muito dela.

Porque um editor não escolhe apenas notícias.

Escolhe relevâncias.

Escolhe aquilo que milhões de brasileiros encontrarão pela manhã, aquilo que será discutido no Congresso, aquilo que provocará revolta.

E, silenciosamente, aquilo que dificilmente provocará alguma coisa.

A imprensa talvez não consiga decidir o que uma sociedade pensa.

Mas possui um extraordinário poder para decidir o que indigna uma sociedade.

E é exatamente aí que deveríamos começar a nos incomodar.

Não porque a tarifa americana tenha recebido atenção demais. Ela merecia atenção.

Mas porque talvez outras barreiras recebam atenção de menos.

O leitor não precisa que o jornal escolha seus amigos e adversários. Não precisa receber uma indignação pronta junto com o café da manhã.

Precisa de informação, contexto, proporção e alguma confiança em sua capacidade de chegar sozinho às próprias conclusões.

Protecionismo.

Salvaguarda.

Ajuste de carbono.

Palavras são importantes, mas seria interessante perguntar ao empresário brasileiro qual delas aparece no balanço de sua empresa.

Provavelmente nenhuma.

No balanço aparecem custos.

Uma verdade ocupa a primeira página.

Outra aparece no caderno de economia.

Uma terceira chega protegida por uma sigla em inglês suficientemente elegante para evitar maiores emoções.

Todas foram publicadas.

Todas são verdadeiras.

Portanto, ninguém mentiu.

Que alívio.

Só faltou explicar por que, diante de algumas verdades, devemos bater na mesa e diante de outras, simplesmente virar a página.