A fé de um povo como arma eleitoral
Há símbolos que pertencem a governos, partidos e épocas. Outros atravessam governos, sobrevivem aos partidos e acabam incorporados à memória de um povo. Nossa Senhora Aparecida pertence a estes últimos.
No dia 12 de outubro, milhões de brasileiros voltarão os olhos para uma pequena imagem encontrada nas águas do Rio Paraíba do Sul há mais de três séculos. Sua história não começou num palácio, não nasceu de decreto e muito menos precisou de estratégia política para entrar na alma nacional. Segundo a tradição, três pescadores simples procuravam peixes quando recolheram em suas redes primeiro o corpo e depois a cabeça de uma pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição. Há algo profundamente brasileiro nessa origem: um rio, homens pobres, redes vazias, uma imagem quebrada e a esperança que, aos poucos, se transformaria numa das maiores devoções religiosas do País.
A fé cresceu lentamente, passando de casa em casa e de geração em geração. Em 1980, a Lei nº 6.802 consagrou 12 de outubro como feriado nacional dedicado a Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil. Muito antes disso, porém, ela já não precisava de lei para pertencer ao povo. Está nos altares domésticos, nos terços gastos pelas mãos de mães aflitas, nas medalhas carregadas no peito, nas promessas cumpridas de joelhos e nas romarias que atravessam estradas e madrugadas. Está, sobretudo, no silêncio de quem entra na Basílica carregando uma dor que talvez não tenha conseguido contar a ninguém.
É perfeitamente possível não compartilhar dessa fé. O Brasil é e deve continuar sendo um Estado laico, no qual liberdade religiosa inclui o direito de acreditar, de não acreditar ou de professar qualquer religião. Mas há uma diferença fundamental entre não dividir uma crença e desrespeitar aquilo que ela representa para milhões de compatriotas.
Talvez por isso tenha sido tão lamentável assistir, às vésperas de uma eleição presidencial, à Padroeira do Brasil ser arrastada para dentro da disputa política. Circulou pelas redes sociais a afirmação de que o candidato Flávio Bolsonaro pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. A informação era falsa. A apuração do Projeto Comprova mostrou que ele não fez tal proposta nem indicou intenção de fazê-lo. A narrativa recorria a um projeto apresentado em 2007 por outro parlamentar e arquivado no ano seguinte.
A mentira, no entanto, já havia partido. E nisso reside uma das características mais perversas da desinformação contemporânea: ela não precisa esperar confirmação. Chega antes, desperta medo, encontra ressentimentos, provoca indignação e se instala na consciência de quem a recebe. Quando a verdade finalmente alcança o mesmo endereço, muitas vezes encontra a porta aberta e o dano consumado.
O episódio seria lamentável em qualquer circunstância. Torna-se ainda mais grave porque escolheu como instrumento precisamente aquilo que deveria estar protegido das pequenas espertezas de uma campanha eleitoral: a fé.
Não se trata aqui de defender um candidato. Amanhã, os candidatos serão outros, e muitos dos personagens que hoje dominam o noticiário acabarão reduzidos a nomes em arquivos de jornal. Nossa Senhora Aparecida continuará sendo Nossa Senhora Aparecida. É justamente essa diferença de grandeza e permanência que deveria impor algum pudor à política.
Pode-se contestar programa de governo, criticar proposta econômica, questionar biografia, alianças, discursos e contradições de qualquer candidato. Isso é parte natural de uma democracia. Inventar, porém, uma ameaça à devoção de milhões de pessoas para produzir medo político pertence a outra categoria. Não é debate. É manipulação.
Talvez devêssemos recuperar uma regra elementar da vida pública: nem tudo aquilo que funciona eleitoralmente deveria ser moralmente aceitável. A política descobriu há muito que a emoção viaja mais rapidamente que o argumento e que o medo percorre distâncias que uma planilha econômica jamais alcançará. Religião, família, patriotismo, identidade e pertencimento tornaram-se instrumentos particularmente eficientes de mobilização. O problema começa quando tudo passa a ser tratado apenas como instrumento.
Fé não é ferramenta de marketing. Devoção não é estratégia de campanha. Nossa Senhora Aparecida não é uma hashtag e muito menos munição eleitoral.
Quem reza diante daquela pequena imagem não deveria precisar perguntar se sua crença está sendo utilizada para favorecer um lado ou prejudicar outro. Há espaços que uma sociedade civilizada deveria tentar preservar, não porque estejam acima de qualquer crítica, mas porque existem dimensões humanas íntimas demais para serem falsificadas sem produzir uma espécie de violência moral. A fé é uma delas.
No próximo 12 de outubro, talvez faça bem ao Brasil esquecer por algumas horas os palanques, os marqueteiros e as redes sociais e voltar ao começo de tudo. Às margens de um rio estavam três pescadores, redes que voltavam vazias e uma pequena imagem quebrada retirada da água. Não havia esquerda ou direita, pesquisas eleitorais ou candidatos disputando o voto religioso. Havia homens simples e havia fé.
Talvez seja justamente por isso que essa história tenha sobrevivido por mais de trezentos anos. Aquilo que nasce verdadeiramente no coração de um povo não precisa de propaganda para permanecer.
Governos passarão, presidentes passarão e eleições que hoje parecem capazes de dividir famílias inteiras acabarão reduzidas a datas nos livros de História. A pequena imagem continuará recebendo gente: pessoas agradecendo, chorando, pedindo e acreditando. Há algo profundamente bonito nessa permanência diante da transitoriedade do poder.
Talvez a política pudesse aprender alguma coisa com ela. Principalmente humildade.
Quem pretende governar um país deveria compreender que existem coisas maiores do que uma eleição. E quem disputa uma eleição deveria compreender que nem tudo pode ser transformado em arma.
No dia da Padroeira, talvez o Brasil pudesse recuperar essa delicadeza: deixar a mentira do lado de fora e permitir que Nossa Senhora Aparecida volte a ocupar o lugar em que sempre esteve: não no palanque, não na propaganda, não na guerra eleitoral, mas no coração daqueles que nela depositam sua fé.
