A esmola que sustenta a ditadura
O governo Lula prepara o envio de ajuda humanitária a Cuba. A medida será apresentada como gesto de solidariedade. Na prática, é um erro político grave e, pior, um erro que pode ajudar a prolongar a própria crise que diz combater.
Cuba não chegou ao colapso por acaso. Trata-se de um regime que, há mais de seis décadas, combina autoritarismo político com fracasso econômico crônico. Desde 1962, sob embargo americano, o governo cubano construiu uma narrativa conveniente de vítima externa. Mas essa versão ignora um dado central: mesmo quando teve apoio maciço, o modelo não funcionou.
Após o fim da União Soviética, em 1991, a economia cubana encolheu cerca de 35%. O país mergulhou no chamado “Período Especial”, marcado por fome, apagões e colapso produtivo. O regime sobreviveu não por eficiência, mas por controle. Nos anos 2000, foi salvo pelo petróleo subsidiado da Venezuela. Quando Caracas entrou em crise, Havana voltou a afundar.
Agora, a história se repete.
Cuba enfrenta apagões diários, inflação elevada, escassez de alimentos, medicamentos e uma fuga em massa de sua população: mais de 400 mil cubanos deixaram o país. Não se trata de uma crise pontual. É o esgotamento de um sistema.
E é justamente nesse momento que o Brasil decide intervir.
Não para exigir reformas, não para pressionar por abertura política, mas para enviar ajuda sem contrapartidas, oferecendo ao regime exatamente o que ele sempre buscou: tempo.
É preciso dizer com clareza: em regimes autoritários, não existe ajuda neutra. Toda assistência internacional passa pelo Estado. Toda ajuda reforça o controle estatal. Toda ajuda prolonga a capacidade de sobrevivência do regime.
O governo Lula parece ignorar esse fato básico ou, mais grave, escolhe ignorá-lo.
Ao agir assim, o Brasil abandona qualquer pretensão de coerência democrática e assume um papel perigoso: o de amortecer uma crise que, pela primeira vez em décadas, se aproxima de um limite real.
A história mostra que regimes autoritários não caem por pressão externa isolada nem por crises administráveis. Eles caem quando a crise deixa de ser suportável. Quando não há mais saídas. Quando o custo de manter o sistema supera sua capacidade de controle.
Cuba ainda não chegou a esse ponto e talvez não chegue justamente porque decisões como a do governo brasileiro impedem que isso aconteça.
Sun Tzu ensinava que um gato encurralado reage como um tigre. A lógica é dura, mas clara: é no limite que surgem rupturas. Ao oferecer ajuda, o Brasil atua na direção oposta, alivia a pressão, reduz o custo do colapso e prolonga o impasse.
Não se trata de defender o sofrimento do povo cubano.
Trata-se de reconhecer que esse sofrimento já existe há décadas e nunca produziu mudança porque sempre houve algum tipo de resgate externo.
O que Lula chama de solidariedade pode, na prática, ser mais um capítulo dessa história.
Um capítulo em que boas intenções sustentam más consequências.
Se o objetivo é mudança real em Cuba, o caminho não é aliviar o regime.
É parar de sustentá-lo.
Paulo Roberto Garcia
