BETO BELLINI

23/02/2026

Nos últimos anos, as redes sociais se consolidaram como o principal espaço de circulação de informações. Mas, junto com a democratização da comunicação, surgiu um fenômeno preocupante: a disseminação de fake news. Milhões de pessoas passam a viver em um mundo fantasioso, sustentado por narrativas falsas que se espalham em velocidade viral. O que explica essa adesão tão intensa a versões distorcidas da realidade? A psicologia oferece uma pista: a dissonância cognitiva.

O conceito descreve o desconforto mental que surge quando uma pessoa se depara com informações que entram em conflito com suas crenças ou valores. Para reduzir esse mal-estar, o indivíduo tende a rejeitar ou reinterpretar os fatos, buscando preservar a coerência interna. É nesse ponto que as fake news encontram terreno fértil: elas oferecem uma narrativa que confirma aquilo em que o sujeito já acredita, funcionando como um alívio para a tensão cognitiva.

As redes sociais amplificam esse processo. Algoritmos priorizam conteúdos que geram engajamento, e o engajamento costuma vir daquilo que provoca emoção, como indignação, medo ou esperança. Assim, usuários são expostos repetidamente a informações que reforçam suas convicções, criando bolhas digitais e câmaras de eco. Dentro desse ambiente, a dissonância cognitiva é constantemente neutralizada: qualquer dado que contrarie a visão de mundo é descartado como mentira da mídia ou conspiração, enquanto narrativas falsas são aceitas como verdades absolutas.

Mas esse universo paralelo não se sustenta sozinho. Há pessoas conscientes que se aproveitam da ingenuidade e da vulnerabilidade de muitos usuários para manipular percepções e comportamentos. Políticos oportunistas, influenciadores digitais e até grupos organizados exploram a dissonância cognitiva como ferramenta estratégica: oferecem narrativas simplificadas e emocionalmente sedutoras, capazes de reforçar crenças já existentes e neutralizar qualquer dúvida. Dessa forma, transformam cidadãos em seguidores fiéis, prontos para defender ideias falsas como se fossem verdades incontestáveis, perpetuando um ciclo de desinformação que fragiliza a democracia e o tecido social.

O resultado é a construção de universos paralelos. Pessoas passam a acreditar em curas milagrosas sem respaldo científico, em teorias conspiratórias sobre vacinas ou em versões distorcidas de acontecimentos políticos. Esse mundo fantasioso não é apenas uma curiosidade sociológica: ele tem consequências concretas. A polarização se intensifica, a confiança em instituições se acaba e o diálogo entre grupos sociais se torna cada vez mais difícil.

Combater esse fenômeno exige mais do que checagem de fatos. É preciso investir em educação midiática, para que cidadãos desenvolvam pensamento crítico e aprendam a reconhecer os mecanismos psicológicos que os tornam vulneráveis às fake news. Também cabe aos veículos de comunicação reforçar seu papel de guardiões da verdade, oferecendo jornalismo de qualidade e transparente. Afinal, em tempos de desinformação, a busca pela realidade é não apenas um exercício intelectual, mas um compromisso ético com a sociedade.

 

Gilberto César Ortolan Bellini, mestre em Administração, professor da Fatec/STZ e da Unip/RP, membro da ASEL - Academia Sertanezina de Letras - e da Rabugentos Cia Teatral