A democracia da amnesia
“A única coisa que o homem faz naturalmente é repetir o que já fez. Tudo o mais exige coragem.”
Há um curioso fenômeno nas democracias. Quanto maior o tempo de um governante na vida pública, menor parece ser a memória de parte do eleitorado.
Em qualquer outro aspecto da vida, agimos exatamente ao contrário. Um administrador que leva uma empresa ao prejuízo dificilmente recebe um novo mandato. Um síndico que multiplica as despesas do condomínio costuma ser substituído. Um funcionário que trai a confiança do empregador raramente ganha uma quarta oportunidade para provar que, desta vez, será diferente.
Na política, entretanto, a lógica parece seguir leis próprias. O passado, que deveria ser o principal critério de avaliação, frequentemente se transforma em mero detalhe. As promessas passam a pesar mais do que os resultados e a esperança parece derrotar a memória.
Em uma democracia, disputar um novo mandato é um direito. Concedê-lo é uma escolha do eleitor. Entre uma coisa e outra existe apenas uma pergunta realmente importante: por que acreditar que os próximos quatro anos serão diferentes dos doze anteriores?
Quando um governante busca um quarto mandato, a eleição deixa de ser um exercício de imaginação. Ela passa a ser um julgamento da própria história.
O eleitor já sabe como aquela pessoa governa. Conhece suas prioridades, seu estilo de administrar, as companhias que escolhe, a maneira como se relaciona com as instituições e, sobretudo, os resultados que entregou.
Promessas pertencem ao campo das intenções. A história pertence ao campo dos fatos.
É evidente que nenhum governo controla tudo. Crises internacionais, guerras, pandemias e oscilações econômicas escapam ao comando de qualquer president, mas corrupção, crescimento da máquina pública, aumento da dívida, expansão dos gastos, escolha de ministros, fortalecimento ou enfraquecimento das instituições são, em grande medida, consequência de decisões políticas.
Por isso, quando alguém que já governou por três mandatos pede um quarto voto de confiança, a pergunta não deveria ser dirigida aos adversários.
Deveria ser dirigida ao próprio candidato.
O que aconteceu nas três primeiras oportunidades que justifique uma quarta?
Não basta dizer que agora será diferente. Toda transformação verdadeira exige algo muito mais difícil do que um discurso de campanha: exige reconhecer erros, abandonar velhos métodos e demonstrar, por atitudes concretas, que as lições foram aprendidas.
A história mostra que alguns líderes foram capazes de evoluir, mas mostra também que a regra costuma ser outra.
O ser humano repete padrões.
É mais confortável insistir nas mesmas fórmulas do que admitir que elas fracassaram.
Na política, essa tendência costuma ser ainda mais intensa. Quanto maior a permanência no poder, maior a convicção de que os próprios métodos estavam certos e de que os erros foram sempre culpa das circunstâncias, da oposição, da imprensa, do mercado, do clima ou da má sorte. A autocrítica, essa visitante discreta, raramente encontra lugar à mesa do poder.
É justamente por isso que as democracias valorizam a alternância.
Não porque todo governante seja ruim, mas porque nenhum governante deveria acreditar que se tornou indispensável.
Existe uma ironia curiosa em nossa vida pública.
Somos extremamente rigorosos quando emprestamos dinheiro, compramos um imóvel ou escolhemos um administrador para um condomínio. Exigimos histórico, referências e resultados. Diante da urna, muitos parecem acreditar em um fenômeno que não aceitariam em nenhum outro lugar: que o quarto capítulo apagará os três primeiros.
Pode acontecer?
Milagres existem, mas talvez seja prudente reservar os milagres para a religião.
As eleições costumam funcionar melhor quando são conduzidas pela memória. Porque as democracias não costumam morrer de uma vez.
Elas adoecem lentamente.
Não apenas quando lhes falta liberdade, mas também quando lhes sobra esquecimento.
Porque um povo que esquece o seu passado acaba votando para revivê-lo.
