BETO BELLINI

05/10/2026

Por muitos anos, acostumamo-nos a associar a palavra corrupção apenas aos grandes escândalos políticos, às manchetes milionárias e aos casos que ocupam espaço nos telejornais. Quando ouvimos falar em corrupção, logo pensamos em desvios de recursos públicos, propinas e esquemas sofisticados. Mas existe uma dimensão menos visível desse problema, que se manifesta no cotidiano e, justamente por ser tão comum, acaba sendo tratada com naturalidade.

Todos os dias, milhões de pessoas condenam com veemência os atos praticados por políticos, empresários ou servidores públicos. Entretanto, muitas dessas mesmas pessoas não percebem que reproduzem, em escala menor, comportamentos que seguem a mesma lógica: a obtenção de vantagens indevidas em prejuízo das regras e da coletividade.

É o cidadão que fura a fila e justifica que está com pressa. É o motorista que usa o acostamento para ganhar alguns minutos no trânsito. É quem estaciona em vaga reservada sem ter direito, quem apresenta um atestado duvidoso para faltar ao trabalho ou quem omite informações para pagar menos impostos. São os pequenos favores obtidos por amizade dentro de repartições públicas, os "quebra-galhos", que ignoram procedimentos e os famosos "jeitinhos" para contornar normas consideradas inconvenientes.

O problema não está apenas no ato em si, mas na justificativa que normalmente o acompanha. Quase sempre, existe uma explicação pronta: "todo mundo faz", "não prejudica ninguém", "é só uma vez" ou "o sistema já é injusto". Assim, a infração deixa de ser vista como algo errado e passa a ser percebida como mera habilidade para lidar com as dificuldades da vida.

Essa tolerância com as pequenas irregularidades cria uma contradição curiosa. A mesma pessoa que se indigna diante da corrupção praticada por autoridades muitas vezes relativiza suas próprias atitudes. Exige honestidade dos outros, mas encontra desculpas para os próprios desvios. Cobra ética dos governantes enquanto procura atalhos para escapar das regras que considera inconvenientes.

É evidente que existe uma enorme diferença de impacto entre um grande esquema de desvio de recursos públicos e uma pequena fraude cotidiana. Não se trata de equiparar as consequências. Um crime que desvia milhões afeta hospitais, escolas e serviços essenciais de maneira muito mais grave. No entanto, ambos compartilham um elemento fundamental: a ideia de que as regras podem ser ignoradas quando isso traz algum benefício pessoal.

Nenhuma sociedade se torna íntegra apenas por meio de leis mais rígidas ou operações de fiscalização. A transformação começa quando as pessoas passam a reconhecer que a ética não é um comportamento exigido apenas dos outros. Ela precisa estar presente também nas escolhas individuais mais simples, especialmente naquelas que ninguém está observando.

Talvez o maior desafio seja justamente abandonar a confortável posição de juiz permanente dos erros alheios para exercer um olhar crítico sobre os próprios hábitos. A corrupção que mais nos revolta costuma estar distante, estampada nas manchetes. A que mais precisamos enfrentar, porém, muitas vezes está diante do espelho.

Uma sociedade verdadeiramente ética não é construída apenas pela punição dos grandes corruptos. Ela nasce quando cada cidadão compreende que honestidade não é um discurso, mas uma prática diária. E que, antes de exigir integridade dos outros, é preciso perguntar a si mesmo: quais pequenos privilégios indevidos eu já passei a considerar normais?

 

Gilberto César Ortolan Bellini é mestre em Administração, professor universitário e coordenador na Fatec Sertãozinho, membro da Academia de Letras e da Rabugentos Cia Teatral