AMÉRICO PERIN

25/05/2026

Américo Perin

Vieram os portugueses. Vieram em busca de fazer fortuna na nova colônia recém-descoberta. Aqui tudo ainda estava por se fazer e eles precisavam de mão de obra, de preferência sem custo, pois vieram com a intenção de enriquecer e voltar para a terrinha...

Tentaram com os índios, o que não deu certo pois esses conheciam bem o território e escapavam na primeira oportunidade. Então foram em busca de trabalhadores na África e o sistema de trabalho escravizado durou cerca de 400 anos.

Bem, apesar de estarmos em pleno mês de maio, em que no dia 13 foi assinada a Lei Áurea, hoje vou falar um pouco sobre música.

Os portugueses realmente enriqueceram à custa do trabalho escravizado, o que não é motivo para festejo nenhum. Então procurando imitar os ricos da Europa, tiveram a ideia de criar orquestras nas suas fazendas e para isso trouxeram maestros europeus, que ensinaram a arte de tocar seus instrumentos e as músicas eram do gênero erudito dos compositores da época.

Mais uma vez foi a vez dos escravizados entrarem na história e mostraram-se excelentes músicos, propiciando que as fazendas fizessem até disputas entre elas para ver quem tinha a melhor orquestra. Vestiram os músicos de fraque e aquelas perucas brancas muito usadas na Europa daquele tempo. Imaginem a cena, aqueles homens fortes bem vestidos dessa forma, mas todos descalços, pois não havia calçados que lhes coubessem nos pés...

Com o passar dos anos, os trabalhadores escravizados foram aprendendo ofícios, uns tornando-se barbeiros, outros alfaiates etc. e muitos de alguma forma conseguiam sua liberdade e iam morar nas cidades. Uma vez estabelecidos, após o trabalho diário, sentavam nas calçadas com seus instrumentos e assim reunidos reproduziam o que tinham aprendido nas orquestras. Essa fase, que ficou conhecida como a música dos barbeiros, é tida como o início da música popular brasileira, pois aí foram surgindo novos ritmos, novas melodias e novas harmonias musicais.

Mais tarde, com o advento da Lei Áurea, as famílias alforriadas em grande número migraram para a capital, Rio de Janeiro. Acontece que em lá chegando, se depararam com os palacetes que os portugueses deixaram vazios por terem voltado com Dom João para Portugal. E assim estabelecidos e com suas famílias assentadas nos casarões, a única coisa que restava aos homens era tocar música, pois consta que era proibido lhes dar trabalho. As mulheres ainda se adaptaram aos serviços domésticos, mas os homens...

E lá iam eles passar o tempo com suas músicas. Mas tinham que tomar cuidado para que não fossem ouvidos pela polícia. Se fossem vistos pelas ruas carregando seu violão, eram tachados de desocupados e alguns foram até presos.

Ocorre que num dos casarões desocupados pelos portugueses foi morar uma senhora que cozinhava bem e alimentava aqueles homens. Seu nome entrou para História: Tia Ciata, que, enquanto os homens tocavam e cantavam o que ficou conhecida como a nossa música, a música brasileira, ela preparava seus deliciosos quitutes.

Bem, o fato curioso é que só se fazia música no fundo dos enormes quintais daqueles casarões, pois assim a polícia não poderia ouvir de lá da rua.

Alguém já ouviu falar no Samba de Fundo de Quintal?